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Bombas, fogo e tratores: protesto contra acordo UE-Mercosul toma o centro de Bruxelas

Agricultores europeus entram em confronto com a polícia no dia da votação do tratado; correspondente da CNN acompanha caos perto do Parlamento Europeu.

O que começou como uma manifestação organizada e pacífica terminou em fumaça, bombas de gás lacrimogêneo e cenas de confronto no coração político da Europa. Nesta quinta-feira, agricultores de vários países da União Europeia tomaram o centro de Bruxelas para protestar contra o acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul, transformando a capital belga em um palco de tensão às vésperas de uma decisão histórica.

A poucos metros do Parlamento Europeu, o correspondente da CNN Américo Martins acompanhou de perto a escalada da crise. Segundo ele, a situação mudou rapidamente quando grupos mais radicais passaram a enfrentar a polícia, ateando fogo em uma praça central e forçando a intervenção das forças de segurança para dispersar os manifestantes.

Confronto, gás e fogo perto do Parlamento

De acordo com o relato ao vivo da CNN, o protesto foi inicialmente organizado por entidades de agricultores e transcorria de forma pacífica. A virada aconteceu quando manifestantes incendiaram uma praça próxima ao Parlamento Europeu, alvo simbólico do ato. A fumaça tomou conta da região e a polícia reagiu com bombas de gás lacrimogêneo para retomar o controle do local.

Mesmo após a dispersão, o centro de Bruxelas seguiu praticamente paralisado. Tratores bloquearam as principais vias, impedindo o tráfego e ampliando o impacto da manifestação sobre a rotina da cidade.

Batatas, fumaça e jatos de água

Em meio ao confronto, agricultores passaram a atirar batatas contra os policiais, em um gesto que rapidamente viralizou e passou a simbolizar a revolta do setor. Em uma das cenas mais emblemáticas do protesto, um agricultor despejou sacos de batatas no asfalto, enquanto outros recolhiam os alimentos no meio da confusão.

Além das batatas, bombas de fumaça também foram lançadas contra os agentes. A resposta veio com jatos de água de alta pressão, direcionados aos manifestantes mais próximos. Centenas de tratores cercaram a área, com buzinas ligadas, dando cobertura aos atos mais agressivos.

Acordo divide a Europa

A manifestação ocorreu no mesmo dia em que o Conselho da União Europeia se reúne para discutir a aprovação do acordo UE-Mercosul, que enfrenta forte resistência em parte do bloco. Alemanha defende a assinatura imediata do tratado, enquanto França, Itália, Irlanda e Polônia se posicionam de forma contrária.

O presidente francês, Emmanuel Macron, foi direto ao chegar à reunião. Disse que a França não está preparada para assinar o acordo. Segundo Américo Martins, as lideranças francesas dominam o protesto, com apoio explícito do governo para tentar barrar o tratado.

Agricultores da Itália, Polônia e Irlanda também marcaram presença, reforçando o caráter pan-europeu da mobilização.

Medo de prejuízos e crise no campo

Os manifestantes afirmam que o setor agrícola europeu enfrenta dificuldades há anos e acusam a União Europeia de aprofundar a crise com acordos comerciais que aumentam a concorrência. Eles temem que produtos sul-americanos, especialmente do Mercosul, cheguem ao mercado europeu com preços mais baixos, pressionando a renda dos produtores locais.

Cartazes exibidos durante o ato traziam mensagens como “sem agricultores não há comida nem futuro” e “não ao Mercosul”. A mobilização também mira possíveis cortes no orçamento da Política Agrícola Comum, outro ponto sensível para o campo europeu.

No meio da fumaça, das batatas espalhadas pelo asfalto e do som dos tratores, o protesto em Bruxelas deixou claro que o acordo UE-Mercosul vai muito além de cifras e cláusulas comerciais. Ele toca no medo, na sobrevivência e na identidade de milhares de agricultores que sentem que estão sendo deixados para trás. Enquanto líderes discutem o futuro do comércio internacional dentro dos salões do poder, do lado de fora cresce a sensação de que decisões históricas, quando não dialogam com quem vive a realidade, acabam explodindo nas ruas.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/CNN Brasil

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