Mesmo com julgamentos concluídos, Supremo projeta 2026 marcado por prisões, réus foragidos, debate sobre redução de penas e novos embates políticos.
Há momentos em que a Justiça conclui processos, mas o país ainda não consegue virar a página. É exatamente essa a sensação que paira hoje sobre o Supremo Tribunal Federal diante da trama golpista. Embora houvesse a expectativa de iniciar 2026 com os principais casos resolvidos, ministros da Corte reconhecem que as repercussões estão longe de arrefecer e que o tema seguirá pulsando no centro do debate institucional.
Fugas de réus, discussões sobre a redução de penas e novas ações penais no horizonte impedem qualquer clima de encerramento. Internamente, o STF já trabalha com a projeção de um ano intenso, com disputas jurídicas que atravessam a segurança institucional, a política e o calendário eleitoral.
Fugas reacendem alerta no Supremo
Dois fatores principais alimentam essa avaliação entre os ministros. O primeiro são as fugas de investigados e condenados, que acenderam um sinal de alerta no Judiciário e nos órgãos de investigação. Casos como o do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, que permanece nos Estados Unidos, e do ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal, Silvinei Vasques, preso no Paraguai, reforçaram a preocupação com novas tentativas de evasão.
Diante desse cenário, o relator dos processos, ministro Alexandre de Moraes, decretou a prisão domiciliar de dez réus que ainda respondiam em liberdade. A avaliação no STF é de que, em 2026, esses condenados deverão ser encaminhados ao regime fechado, quando for determinado o início do cumprimento da pena definitiva.
Carlos Rocha segue foragido
Entre os alvos das decisões recentes, um nome segue fora do alcance da Justiça. O presidente do Instituto Voto Legal, Carlos Rocha, permanece foragido após ter a prisão preventiva decretada no sábado (27). A ordem foi expedida de ofício pelo ministro Alexandre de Moraes, sem solicitação da Procuradoria-Geral da República ou da Polícia Federal, com o objetivo de evitar novas fugas.

Dos dez mandados de prisão expedidos como medida preventiva, apenas Carlos Rocha não foi localizado. Além da prisão domiciliar, o STF impôs medidas cautelares severas, como a proibição do uso de redes sociais e de contato com outros investigados.
Rocha foi condenado a sete anos e seis meses de prisão por participação na trama golpista. Segundo a acusação, ele atuou na produção e divulgação de um relatório falso sobre supostas falhas nas urnas eletrônicas, utilizado para tentar justificar a contestação do resultado eleitoral. Ele foi condenado por organização criminosa armada e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Tentativa de fuga no Paraguai acelerou decisões
A captura de Silvinei Vasques no Paraguai foi determinante para endurecer as medidas. Informações preliminares indicam que o ex-diretor da PRF teria rompido a tornozeleira eletrônica e viajado de carro de Santa Catarina até o país vizinho. Ele tentava embarcar em um voo para El Salvador utilizando documentos de outra pessoa quando foi preso pela migração paraguaia, na madrugada de sexta-feira (26).
O episódio reforçou, dentro do STF, a percepção de risco concreto de novas fugas e acelerou decisões que vinham sendo debatidas nos bastidores da Corte.
PL da Dosimetria amplia tensão jurídica
O segundo fator que impede qualquer sensação de encerramento é o chamado PL da Dosimetria, aprovado pelo Congresso Nacional. A proposta reduz penas aplicadas aos envolvidos na tentativa de golpe de Estado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já anunciou que vetará o projeto, mas o Legislativo ainda pode derrubar o veto.
Se a norma entrar em vigor, a redução das penas deverá ser aplicada de forma retroativa. No STF, a expectativa é de uma verdadeira enxurrada de pedidos das defesas, tanto de condenados pelos atos de 8 de janeiro quanto dos envolvidos diretamente na trama golpista.
Outros processos sensíveis no radar de 2026
Além dessas repercussões, o Supremo ainda terá pela frente, no primeiro semestre de 2026, julgamentos de forte impacto político. Estão na pauta a ação penal contra o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e processos sobre desvio de emendas parlamentares envolvendo deputados do PL.
A estratégia da Corte é tentar concluir esses casos mais controversos antes da abertura oficial do calendário eleitoral, evitando que decisões judiciais se misturem ainda mais ao ambiente de disputa política.
No fim das contas, o STF pode até ter encerrado julgamentos, mas não encerrou o debate. As fugas, os réus foragidos, a discussão sobre penas e o peso das decisões futuras mostram que a trama golpista continua sendo uma ferida aberta na democracia brasileira. E, enquanto não houver respostas definitivas e confiança institucional restaurada, a página seguirá sendo virada com dificuldade, sob os olhos atentos de um país que ainda busca estabilidade e justiça.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Brasil – EBC













