Inelegível e sob forte pressão judicial, ex-presidente segue como cabo eleitoral enquanto Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas surgem no centro da sucessão.
A política brasileira se move, muitas vezes, nos bastidores da Justiça. E é sob esse pano de fundo que a direita entra em um dos momentos mais decisivos de sua história recente. A possibilidade concreta de prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e sua exclusão definitiva do jogo eleitoral de 2026 não encerram sua influência, mas inauguram uma disputa silenciosa e estratégica pelo comando de um campo político ainda fortemente marcado por sua figura.
O tema foi analisado no programa especial Perspectivas 2026, da CNN Brasil, que debateu o impacto da situação jurídica de Bolsonaro e os caminhos que a direita pode trilhar nas próximas eleições. Declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral, o ex-mandatário enfrenta um cenário de crescente pressão judicial, que pode culminar em sua detenção.
Bolsonaro fora das urnas, mas ainda influente
Durante a análise, a âncora Débora Bergamasco destacou que, mesmo fora da disputa direta, Jair Bolsonaro segue sendo um ator central no tabuleiro político. Segundo ela, o ex-presidente mantém um capital eleitoral relevante, embora sua capacidade de articulação política esteja severamente comprometida.
Na avaliação apresentada, Bolsonaro hoje atua muito mais como cabo eleitoral do que como formulador de políticas. A interlocução política do ex-presidente, segundo Bergamasco, está enfraquecida, o que limita seu papel direto nas negociações e decisões estratégicas.
Quem herda a liderança da direita
Ao contrário das projeções feitas ao longo de 2025, que apontavam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como sucessor natural de Bolsonaro, a análise apresentada no programa trouxe um contraponto relevante. Para Débora Bergamasco, o nome mais próximo de assumir esse espaço é o do senador Flávio Bolsonaro.
Segundo ela, o núcleo mais fiel ao bolsonarismo não deposita total confiança em Tarcísio. A razão estaria na postura mais autônoma adotada pelo governador paulista, o que gera resistência dentro do grupo político ligado diretamente à família Bolsonaro.
Desconfiança e cálculo político
A leitura é de que a direita mais ideológica tende a preferir alguém que represente continuidade direta do bolsonarismo, sem desvios de rota. Nesse contexto, Flávio Bolsonaro surge como opção natural para preservar o legado político do pai, mesmo diante do desgaste judicial e da alta rejeição associada ao sobrenome.
Bergamasco chegou a questionar a ideia amplamente difundida de que Tarcísio seria, necessariamente, mais competitivo eleitoralmente do que o senador. Para ela, a associação direta com Jair Bolsonaro pode pesar tanto positivamente quanto negativamente para qualquer candidato.
O prazo que pode definir o jogo
Outro ponto central da análise foi o calendário eleitoral. Abril de 2026 aparece como marco decisivo para a definição das candidaturas. Caso Tarcísio de Freitas queira disputar a Presidência, ele precisará deixar o cargo de governador até essa data. Se optar pela reeleição em São Paulo, permanecerá no Palácio dos Bandeirantes.
Essa decisão, segundo a análise, será determinante não apenas para o futuro de Tarcísio, mas para toda a reorganização da direita no cenário nacional.
Rejeição e transferência de votos
Ao final, Bergamasco lançou uma reflexão que resume o dilema do campo conservador. Ao questionar quem afirma que Tarcísio seria mais competitivo do que Flávio Bolsonaro, ela lembrou que a rejeição associada a Jair Bolsonaro tende a acompanhar qualquer candidato que esteja ao seu lado, inclusive em materiais de campanha.
Ainda assim, a avaliação é de que o ex-presidente mantém força suficiente para transferir votos, mesmo em um ambiente político adverso e sob forte pressão judicial.
No fim das contas, a direita chega a 2026 diante de um paradoxo. Jair Bolsonaro pode até estar fora das urnas e possivelmente atrás das grades, mas sua sombra continua projetada sobre o processo eleitoral. E enquanto o país observa o desenrolar da Justiça, a pergunta que permanece é quem conseguirá transformar esse legado em votos, liderança e viabilidade política em um cenário cada vez mais imprevisível.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Jota













