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Entenda os protestos no Irã que deixaram mortos e acenderam alerta de Trump

Manifestações contra a crise econômica são as maiores desde 2022, já provocaram mortes, prisões e reacenderam tensões entre Teerã e Washington.

O grito que ecoa hoje nas ruas do Irã nasce do bolso vazio, da inflação sufocante e da sensação de abandono. Em meio a um cenário de desgaste econômico profundo, milhares de iranianos voltaram a desafiar o poder do Estado, ocupando ruas e praças em diversas províncias do país. O que começou como protesto contra o custo de vida rapidamente ganhou contornos mais graves, com confrontos, mortos e um novo alerta internacional feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

As manifestações desta semana são consideradas as maiores desde 2022, quando o país foi sacudido por protestos após a morte de Mahsa Amini, jovem que morreu sob custódia policial depois de ser detida por supostamente usar o véu islâmico de forma inadequada. Desta vez, lojistas, comerciantes de bazares e estudantes lideraram os atos, entoando slogans contra o governo e denunciando a deterioração das condições de vida.

Crise econômica é estopim dos protestos

A raiz da insatisfação popular está na economia. O Irã enfrenta dificuldades há anos, agravadas desde 2018, quando os Estados Unidos, sob o primeiro mandato de Donald Trump, se retiraram do acordo nuclear e restabeleceram sanções severas contra o país.

Somente em 2025, o rial iraniano perdeu cerca de metade do seu valor em relação ao dólar. A inflação oficial chegou a 42,5% em dezembro, corroendo salários e tornando itens básicos cada vez mais inacessíveis para a população.

Presidente admite falhas do governo

Em meio à escalada dos protestos, o presidente iraniano, Masou Pezeshkian, fez um pronunciamento incomum ao reconhecer publicamente a responsabilidade do próprio governo pela insatisfação popular.

“As pessoas estão insatisfeitas; a culpa é nossa. A culpa é sua. Não culpem os Estados Unidos; não culpem outra pessoa. Somos nós que devemos servir, e eles devem estar satisfeitos conosco”, afirmou durante um evento com autoridades na quinta-feira (1º).

Pezeshkian reforçou que cabe ao governo administrar melhor os recursos e encontrar soluções concretas para os problemas enfrentados pela população, em um discurso que destoou do tom tradicionalmente adotado pelas autoridades iranianas.

Mortes e confrontos com a polícia

A repressão aos protestos elevou ainda mais a tensão. A primeira morte ligada às manifestações foi registrada na noite de quarta-feira (31), quando um integrante da força paramilitar Basij foi morto e outros 13 ficaram feridos na cidade de Kuhdasht, na província de Lorestan, segundo a mídia estatal.

Na manhã de quinta-feira (1º), ao menos duas pessoas morreram após confrontos entre manifestantes e a polícia no condado de Lordegan, na província de Chaharmahal e Bakhtiari, no sudoeste do país. Ainda não está claro se as vítimas eram agentes de segurança ou civis.

Na mesma noite, mais três mortes e 17 feridos foram registradas após manifestantes invadirem uma delegacia na cidade de Azna, novamente na província de Lorestan. Segundo a agência Fars, houve incêndio de veículos, ataques a prédios públicos e confrontos diretos com as forças de segurança.

Prisões e acusações de desordem pública

As autoridades também intensificaram as prisões. Pelo menos 20 pessoas foram detidas em Kuhdasht, conforme informou o promotor local. Já no condado de Malard, na província de Teerã, ao menos 30 manifestantes foram presos sob acusação de “perturbação da ordem pública”.

Segundo autoridades locais, parte dos detidos teria vindo de cidades vizinhas. A agência Fars afirmou ainda que alguns manifestantes estariam armados, embora não tenha apresentado provas, e que armas de fogo teriam sido apreendidas pela polícia.

Trump faz alerta e ameaça intervenção

A escalada da violência levou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a se manifestar publicamente. Em publicação na rede Truth Social, nesta sexta-feira (2), ele afirmou que os EUA estão prontos para agir caso o Irã continue reprimindo manifestações com mortes.

“Se o Irã atirar e matar violentamente manifestantes pacíficos, como é de costume, os Estados Unidos da América virão em seu auxílio. Estamos prontos para agir”, escreveu.

O Departamento de Estado americano também declarou preocupação com relatos de intimidação, violência e prisões, pedindo o fim da repressão. Em publicação em farsi, destacou que os iranianos estão unidos em uma única reivindicação: respeito às suas vozes e direitos.

Irã reage e eleva o tom contra os EUA

A resposta iraniana foi imediata. Ali Larijani, chefe da segurança nacional do Irã, afirmou que qualquer interferência americana provocaria desorganização em toda a região e a destruição dos interesses dos Estados Unidos.

Já Ali Shamkhani, conselheiro próximo do líder supremo Ali Khamenei, classificou a segurança nacional iraniana como uma “linha vermelha” e advertiu que qualquer tentativa de intervenção seria respondida de forma dura.

Um país em ebulição

Os protestos no Irã revelam mais do que uma crise econômica. Eles expõem um país em ebulição, onde o desespero cotidiano se transforma em coragem coletiva, mesmo diante da repressão. Entre mortes, prisões e ameaças internacionais, o futuro permanece incerto. O que se sabe é que, quando a voz das ruas volta a ecoar com tanta força, não se trata apenas de economia, mas de dignidade, limites e da busca por um amanhã que, para milhões de iranianos, parece cada vez mais distante.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/O Globo

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