Em ato na região central da capital, grupo vê esperança de liberdade e retorno ao país após anos de exílio.
Entre bandeiras, cantos e lágrimas contidas, venezuelanos que vivem no Brasil transformaram a manhã deste domingo em um momento de catarse coletiva. Reunidos em frente à Torre de TV, área central de Brasília, eles celebraram a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em um ato carregado de simbolismo, memória e esperança após anos marcados pelo exílio forçado.
A manifestação foi organizada por integrantes do Movimento Venezuela Livre e reuniu homens, mulheres e famílias inteiras que carregam, na própria história, as marcas da crise política, econômica e humanitária que expulsou milhões de pessoas do país vizinho.
Vozes do exílio e esperança de retorno
Durante o ato, gritos de “Liberdade, liberdade, liberdade” ecoaram junto ao hino nacional venezuelano. Bandeiras e adereços reforçaram o sentimento de identidade e pertencimento, mesmo longe de casa.
“A expectativa é que a gente seja um país livre. Nós venezuelanos estamos felizes por causa da nossa liberdade. É uma luz. Ainda sabemos que falta muita coisa, mas é uma esperança de que vamos ser um país livre, com democracia real”, afirmou à CNN Brasil a educadora social Cléia Pedreira, que vive no Brasil há oito anos. Filha de mãe brasileira e pai venezuelano, ela conta que deixou o país depois de uma vida inteira ali. “Chegou uma hora que não deu mais”, resumiu.
Mais de 8 milhões fora do país
A estudante Daniela Martinez, que mora atualmente em Brasília, compartilha da mesma expectativa. “Nós, como venezuelanos, mais de 8 milhões de pessoas no exílio, estamos muito felizes e com mais esperança de voltar no futuro. Essa ação dos EUA abriu nossas expectativas para ter um futuro melhor na Venezuela. Saímos de lá porque não havia oportunidade”, disse.
Ato pró-Maduro e críticas à ação dos EUA
No sábado, um grupo com posicionamento oposto se reuniu em frente à embaixada da Venezuela em Brasília para protestar contra a ação militar dos Estados Unidos. O ato foi convocado por movimentos de esquerda e contou com bandeiras de partidos políticos e de países como Venezuela, Palestina e Brasil.
O embaixador venezuelano no Brasil, Manuel Vadell, participou da manifestação e classificou a captura de Maduro como um episódio grave. Em discurso, afirmou que a ação representa “um precedente muito grave para a região” e defendeu atenção redobrada dos movimentos políticos do continente.
Posição do Brasil e impasse regional
No mesmo sábado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou nas redes sociais que os Estados Unidos cometeram uma “afronta gravíssima” ao ultrapassar uma “linha inaceitável”. No domingo, Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha divulgaram uma nota conjunta defendendo uma solução sem ingerência externa e expressando preocupação com qualquer tentativa de controle governamental na Venezuela.
O posicionamento veio poucas horas antes de uma reunião virtual da Celac, que discutiu, entre outros temas, os desdobramentos do ataque dos EUA. O encontro terminou sem nota pública, evidenciando divergências políticas internas entre os países do bloco. Segundo apuração da CNN, o Itamaraty, representado pelo chanceler Mauro Vieira, manteve posição contrária à captura de Maduro e à atuação militar americana.
No meio desse tabuleiro geopolítico complexo, os venezuelanos que se reuniram em Brasília traduziram a crise em algo mais simples e profundo: o desejo de voltar para casa. Entre discursos oficiais, notas diplomáticas e disputas internacionais, foram as vozes do exílio que lembraram que, por trás da política, existem vidas suspensas no tempo, à espera de um país onde seja possível, novamente, sonhar.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil













