Ministros falam em constrangimento interno, presidente da Corte defende fiscalização do BC e denúncias de influenciadores dão força à CPMI no Congresso.
Nos bastidores do poder, nem sempre o conflito aparece em público, mas seus efeitos são profundos e duradouros. O avanço do caso envolvendo o Banco Master extrapolou o campo técnico e passou a gerar desconforto, divisões internas e preocupação institucional no Tribunal de Contas da União, além de reverberar com força no meio político e nas redes sociais.
Ministros do TCU ouvidos sob reserva descrevem o ambiente como de “constrangimento geral” e avaliam que a inspeção determinada sobre o trabalho do Banco Central ganhou contornos de intimidação. O clima ficou ainda mais tenso após a revelação de que o próprio BC teria sido alvo de uma ofensiva virtual organizada, informação divulgada pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo.
Clima de divisão e alerta sobre credibilidade
Segundo magistrados da Corte, o caso, relatado pelo ministro Jhonatan de Jesus, aprofundou fissuras internas e acendeu um alerta sobre possíveis danos à credibilidade do tribunal. Um dos ministros avaliou, em conversa com a CNN Brasil, que os efeitos desse episódio podem ser irreversíveis para a imagem institucional do TCU.
Apesar disso, não há expectativa de reversão da liquidação do Banco Master, medida já determinada pelo Banco Central. Nos bastidores, a avaliação predominante é que a ofensiva tenha como objetivo principal influenciar o ritmo e os critérios do processo de liquidação dos ativos do banco.
Liquidação pode ficar mais lenta e burocrática
A preocupação é que o processo passe a enfrentar entraves técnicos e burocráticos adicionais, como a exigência de múltiplas avaliações de mercado para cada ativo. Esse cenário poderia atrasar a liquidação e, consequentemente, dificultar o ressarcimento de credores.
Integrantes do TCU admitem, em caráter reservado, que a polêmica ainda está longe de arrefecer e que novos desdobramentos devem surgir, inclusive com impacto direto no cenário político nacional.
Presidente do TCU defende competência da Corte
O presidente do Tribunal de Contas da União, Vital do Rêgo, evitou responder diretamente às críticas internas sobre a condução do caso. Foi ele quem autorizou a inspeção no Banco Central para analisar o processo de liquidação do Banco Master, acusado de fraude.
Em conversa com a CNN Brasil, Vital do Rêgo reiterou o conteúdo de nota oficial em que defende a competência constitucional do TCU para fiscalizar o Banco Central. No documento, o tribunal afirma que não há qualquer dúvida sobre sua atribuição legal de exercer o controle externo da administração pública federal, incluindo autarquias como o BC, respeitada a autonomia técnica e decisória da instituição.
Denúncia de influenciadores impulsiona CPMI
Paralelamente à crise no TCU, o caso ganhou novo fôlego no Congresso Nacional. O vice-líder da oposição, deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ), afirmou à CNN que denúncias feitas por influenciadores digitais reforçam a necessidade de instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para investigar o Banco Master.
Segundo o parlamentar, o pedido de criação da CPMI já reúne 232 assinaturas, sendo 34 de senadores e 198 de deputados. Para Jordy, os relatos dos influenciadores configuram um fato determinado, requisito essencial para a abertura da comissão.
Propostas milionárias e gestão de narrativa
As denúncias partiram do vereador de Erechim, Rony Gabriel, e da jornalista Juliana Moreira Leite, ambos influenciadores de direita. Rony, que soma cerca de 1,7 milhão de seguidores no Instagram, afirmou ter sido procurado por uma empresa oferecendo serviços de gerenciamento de reputação e gestão de crise para um “grande executivo”.
Em mensagens obtidas pela CNN, o representante da agência UNLTD Brasil mencionava uma disputa política contra “o sistema” e exigia a assinatura de um contrato de confidencialidade, com multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. A proposta fazia referência a um “Projeto DV”, que o vereador associa às iniciais de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Segundo Rony, o objetivo seria construir a narrativa de que o banco seria vítima do Banco Central e que a liquidação teria sido precipitada. Ele afirma que a proposta era milionária, mas diz não ter negociado valores.
Relatos semelhantes e reação das empresas
Juliana Moreira Leite também relatou abordagem semelhante, feita pela empresa Portal Group BR. Áudios e prints obtidos pela CNN indicam que o intuito era impulsionar matérias críticas à atuação do Banco Central e do TCU no caso. A jornalista afirmou ter recusado a proposta e disse ter se sentido enojada com a abordagem.
Procuradas, as empresas negaram vínculo direto com o Banco Master. A UNLTD Brasil afirmou não ter contrato com a instituição financeira, enquanto a Portal Group BR disse atuar apenas na indicação de influenciadores, sem qualquer obrigação relacionada ao conteúdo citado.
Febraban fala em possível ataque coordenado
A Federação Brasileira de Bancos informou, em nota, que identificou no fim de dezembro um volume atípico de menções à entidade e a seus representantes, associadas à liquidação de uma instituição financeira. A Febraban analisa se houve um ataque coordenado e observa que o volume de menções diminuiu nos últimos dias.
O Banco Central e o Banco Master foram procurados, mas não responderam até a publicação desta reportagem.
O caso Banco Master, que começou como um processo técnico de liquidação, transformou-se em um episódio que expõe tensões institucionais, disputas políticas e tentativas de influência no debate público. Em meio a pressões, narrativas e embates silenciosos, fica a reflexão sobre os limites entre fiscalização, autonomia e o uso do poder para moldar percepções em um momento em que a confiança nas instituições é, talvez, o ativo mais valioso da democracia.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Banco Master













