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Venezuela dá sinais de avanço na “segunda fase” do plano dos EUA para o cenário pós-Maduro

Governo interino fala em abertura econômica, mudanças no setor petrolífero e ampliação da libertação de presos políticos.

A Venezuela começa a ensaiar passos em direção a um novo capítulo de sua história recente, marcado por tensões, expectativas e profundas incertezas. Com Nicolás Maduro fora do poder e Delcy Rodríguez há quase duas semanas como presidente em exercício, o país se vê diante de decisões que podem redefinir seu futuro político e econômico. No centro desse movimento estão dois temas que carregam forte peso simbólico: a libertação de presos políticos e a retomada da confiança internacional por meio da atração de investimentos externos.

Esse reposicionamento ocorre em sintonia com o que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, definiu como a “segunda fase” do plano americano para a Venezuela no pós-Maduro. Batizada de “recuperação”, essa etapa combina gestos políticos e econômicos, prevendo anistias, libertações e a facilitação do acesso de empresas estrangeiras ao mercado venezuelano.

As etapas do plano dos Estados Unidos

De acordo com Rubio, a estratégia dos EUA para a Venezuela está estruturada em três fases. A primeira, chamada de “estabilização”, teve como foco evitar que o país mergulhasse no caos após a captura de Maduro.

A segunda fase, agora em andamento, é a de “recuperação”, com ênfase na libertação de presos políticos e na reabertura econômica. Já a terceira, descrita como “transição”, seria o momento em que os venezuelanos definiriam o futuro do país, com a realização de eleições presidenciais.

Reforma da Lei de Hidrocarbonetos

Nesta quinta-feira (15), Delcy Rodríguez anunciou que enviará à Assembleia Nacional um projeto de lei para reformar a Lei de Hidrocarbonetos. A legislação atual garante forte participação do Estado em toda a cadeia produtiva do petróleo, modelo consolidado durante o governo de Hugo Chávez.

A proposta pretende institucionalizar mecanismos emergenciais da Lei Antibloqueio, criada em 2020 para contornar sanções internacionais. Na prática, isso permitiria maior flexibilidade para a atuação de empresas privadas, inclusive estrangeiras, no setor petrolífero.

Sinal verde para investidores estrangeiros

A iniciativa atende a uma exigência clara de petrolíferas internacionais que, pressionadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmam que só voltariam a investir na Venezuela com garantias jurídicas sólidas. O receio dessas empresas está ligado às perdas bilionárias sofridas durante o processo de nacionalização da indústria petrolífera no passado.

Movimentação política em Washington

Enquanto Delcy fazia anúncios em Caracas, a principal líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, estava em Washington. Ela se reuniu com Donald Trump pela primeira vez desde a operação que resultou na captura de Maduro para julgamento nos EUA por tráfico de drogas.

No encontro, María Corina presenteou Trump com a medalha do Prêmio Nobel da Paz que recebeu em 2025. Disse ter conversado “com calma” sobre os sonhos e expectativas do povo venezuelano e afirmou ter ficado impressionada com a “clareza” do presidente americano em relação ao contexto do país.

Avanço na libertação de presos políticos

Outro eixo central dessa nova fase é a libertação de presos políticos. Na quarta-feira (14), Delcy afirmou que o governo continuará promovendo solturas e que até 406 pessoas seriam colocadas em liberdade até o fim do dia.

Segundo dados da organização Foro Penal, que monitora a situação dos Direitos Humanos na Venezuela, o país tinha 806 presos por motivações políticas registrados em 5 de janeiro.

Discurso de abertura e direitos humanos

Delcy afirmou que as medidas sinalizam uma mudança de postura do Estado venezuelano. Para ela, trata-se de um novo momento político, que admite divergências e diversidade ideológica, desde que haja respeito aos Direitos Humanos.

“A mensagem é muito clara: uma Venezuela que se abre para um novo momento político”, declarou.

Os desafios da transição

Especialistas, porém, alertam para os limites desse processo. Ao WW, o professor de Relações Internacionais Eduardo Viola destacou que a estrutura repressiva na Venezuela vai além do Estado e inclui os chamados “coletivos”, grupos paramilitares armados. Segundo ele, esse fator ajuda a explicar por que os EUA optaram por uma transição conduzida sob liderança chavista.

Viola avalia que uma transição liderada diretamente pela oposição nunca teria sido viável nas condições atuais.

O cálculo político de Trump

Já o CEO da Arko Advice Internacional, Thiago de Aragão, observa que a Venezuela também se tornou um elemento estratégico na política interna dos Estados Unidos. Em um ano de eleições legislativas, a atuação firme de Trump na América Latina pode fortalecer o apoio do eleitorado latino, especialmente entre republicanos.

Além disso, a política externa ajuda a deslocar o foco do noticiário de temas sensíveis, como o caso Jeffrey Epstein, que ainda provoca fortes repercussões no país.

Entre anúncios de abertura, libertações graduais e interesses geopolíticos cruzados, a Venezuela avança com cautela. O país parece caminhar para um novo momento, mas ainda carrega as marcas de um passado recente que impõe dúvidas, exige vigilância e mantém viva a pergunta que ecoa dentro e fora de suas fronteiras: até que ponto essa mudança será, de fato, capaz de transformar a realidade dos venezuelanos?

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação

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