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PF avalia recorrer de decisão de Toffoli sobre caso Master e vê risco às investigações

Direção da corporação discute com a AGU reação jurídica após mudanças sucessivas do ministro sobre a perícia de materiais apreendidos.

Nos bastidores da Polícia Federal, o clima é de apreensão e desconforto. A investigação que apura um dos maiores esquemas financeiros em curso no país entrou em um terreno sensível, onde decisões judiciais passaram a interferir diretamente no ritmo e na condução do trabalho policial. Para investigadores experientes, não se trata apenas de um impasse técnico, mas de um momento decisivo para a credibilidade e a autonomia da apuração.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o advogado-geral da União, Jorge Messias, discutem a possibilidade de apresentar recurso contra a decisão do ministro Dias Toffoli, do STF, que determinou a designação de peritos específicos para atuar na análise do material apreendido na segunda fase da operação que mira o Banco Master.

Incômodo interno e temor de atraso

A avaliação dentro da PF é dura. Delegados classificam a decisão como estranha e arbitrária, além de apontarem risco concreto de atraso nas investigações. O principal argumento é que os peritos indicados por Toffoli não participaram da apuração desde o início e não têm familiaridade com o grande volume de dados reunidos ao longo de meses de trabalho.

Embora não haja qualquer questionamento sobre a qualificação técnica dos profissionais, investigadores avaliam que a falta de vínculo com o histórico do caso compromete a agilidade e a eficiência da análise.

Decisões em sequência e surpresa na corporação

Outro ponto que causou forte incômodo foi a forma como a PF tomou conhecimento das determinações. Integrantes da corporação relataram à CNN Brasil que souberam pela imprensa da nova decisão de Toffoli, a terceira em apenas 24 horas, envolvendo a custódia e a perícia do material apreendido.

Para a cúpula da PF, esse vai e vem de orientações gera insegurança operacional e reforça a percepção de ingerência em uma atividade que, por natureza, é técnica e atribuída a uma carreira específica dentro da instituição.

A leitura de ingerência no trabalho policial

Na visão de investigadores, cabe à própria Polícia Federal definir quais profissionais atuarão na perícia, justamente por se tratar de uma função especializada dentro da corporação. A indicação direta de nomes por parte do ministro é vista como uma interferência que ultrapassa os limites do controle judicial e entra no campo da execução da investigação.

Entenda as mudanças nas decisões de Toffoli

Desde a deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero, o ministro Dias Toffoli alterou ao menos três vezes a orientação sobre o destino do material apreendido. Na manhã de quarta-feira (14), ele determinou que documentos, bens e aparelhos eletrônicos fossem lacrados e enviados diretamente ao STF, onde ficariam sob custódia do gabinete.

Segundo o ministro, a medida tinha como objetivo preservar as provas até que fossem devidamente periciadas.

Reação da PF e da PGR

A decisão inicial gerou imediata reação entre delegados da PF, que alertaram para o risco de perda de dados e acesso remoto indevido aos dispositivos. Houve também dúvidas técnicas sobre a capacidade do Supremo para realizar a extração de informações.

Diante do cenário, Andrei Rodrigues solicitou formalmente a reconsideração da ordem. Pouco depois, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, também pediu a revisão, defendendo que a análise fosse feita pela própria PGR para garantir uma visão ampla dos crimes investigados.

Novo recuo e perícia compartilhada

Toffoli acolheu o pedido da Procuradoria-Geral da República e autorizou que o material fosse enviado à PGR, o que foi interpretado como um recuo. Em seguida, nesta quinta-feira (15), o ministro deu mais um passo atrás e permitiu que a Polícia Federal também tivesse acesso aos itens apreendidos, ainda que sob custódia da PGR.

Nesse novo despacho, Toffoli autorizou a atuação de quatro peritos da PF, indicados nominalmente por ele, para acompanhar a extração e a análise dos dados.

A operação e o que está em jogo

A segunda fase da Operação Compliance Zero cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em cinco estados e resultou no bloqueio de mais de R$ 5,7 bilhões em bens. Entre os itens apreendidos estão carros de luxo, relógios, dinheiro em espécie e um revólver.

Os alvos incluem o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, familiares e empresários ligados a fundos de investimento. A investigação apura crimes como gestão fraudulenta, organização criminosa, manipulação de mercado e lavagem de capitais, além de possíveis conexões com esquemas investigados na operação Carbono Oculto.

Em meio a cifras bilionárias, decisões judiciais em sequência e um jogo institucional delicado, o caso expõe uma tensão silenciosa entre investigação e controle. Mais do que um debate técnico, o episódio levanta uma reflexão essencial: até onde vai a necessária supervisão judicial e onde começa o risco de comprometer a autonomia de quem está na linha de frente do combate a crimes que drenam recursos, confiança e esperança do país.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/STF

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