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Primeira reunião trilateral entre EUA, Rússia e Ucrânia expõe impasse que trava a paz

Encontro nos Emirados Árabes Unidos marca retomada inédita do diálogo desde 2022, mas território segue como nó central das negociações.

Depois de mais de dois anos de guerra, destruição e milhares de vidas perdidas, a simples imagem de representantes de Estados Unidos, Rússia e Ucrânia sentados à mesma mesa carrega um peso simbólico enorme. Nesta sexta-feira (23), os três países se reúnem nos Emirados Árabes Unidos no primeiro encontro trilateral conhecido desde a invasão russa em larga escala, em 2022. A expectativa internacional é alta, mas o clima é de cautela.

O sinal mais claro das dificuldades veio do próprio Kremlin. Um assessor do presidente Vladimir Putin afirmou que não há qualquer chance de um acordo duradouro se as divergências territoriais não forem resolvidas. Do outro lado, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky deixou claro que não pretende abrir mão de territórios considerados fundamentais para a soberania do país.

Território no centro da mesa

O coração do impasse está no leste da Ucrânia, mais especificamente na região de Donbas. O destino de Donetsk e Luhansk domina a pauta das negociações mediadas pelos Estados Unidos em Abu Dhabi, que seguem também no sábado (24). Enquanto Moscou controla quase toda Luhansk, Donetsk permanece parcialmente sob domínio ucraniano, com resistência intensa no campo de batalha.

Putin exige que Kiev se retire dos cerca de 20% do território de Donetsk ainda controlados pelas forças ucranianas, uma área de aproximadamente 5.000 km². Zelensky, por sua vez, afirma não ver qualquer justificativa para ceder terras que a maioria da comunidade internacional reconhece como parte da Ucrânia.

Reivindicação russa e rejeição internacional

Donetsk está entre as quatro regiões que Moscou anunciou ter anexado em 2022, após referendos amplamente rejeitados por Kiev e por países ocidentais, que classificaram as consultas como ilegítimas. Para o Kremlin, trata-se de “terras históricas” da Rússia. Para a Ucrânia e seus aliados, a anexação não tem validade jurídica.

O assessor do Kremlin Yuri Ushakov foi direto ao afirmar que, sem resolver a questão territorial, não se deve esperar um acordo de longo prazo. Segundo ele, a Rússia seguirá perseguindo seus objetivos no campo de batalha, onde afirma deter a “iniciativa estratégica”, até que haja um entendimento político.

Diplomacia intensa nos bastidores

As conversas trilaterais acontecem após uma longa reunião de mais de três horas entre Putin e enviados dos Estados Unidos. Entre eles estavam Steve Witkoff, enviado especial do presidente Donald Trump, e Jared Kushner, genro do republicano.

Horas antes de embarcar de volta para Moscou, Witkoff afirmou que as negociações estavam “resumidas a uma única questão”, sugerindo que um acordo poderia estar mais próximo do que parece. Posteriormente, um funcionário europeu confirmou que essa questão central é justamente a disputa territorial.

Quem negocia em nome de cada país

A delegação russa em Abu Dhabi é liderada pelo almirante Igor Olegovich Kostyukov, chefe da Diretoria Principal de Inteligência. Já a comitiva ucraniana conta com Andrii Hnatov, vice-chefe do gabinete presidencial e chefe do Estado-Maior General, sinalizando o peso estratégico das discussões.

No fim, a reunião nos Emirados Árabes Unidos não é apenas um encontro diplomático. É um teste de até onde cada lado está disposto a ir ou a ceder. Quando a paz depende de linhas traçadas no mapa, cada quilômetro carrega histórias, identidades e feridas abertas. E o mundo observa, em silêncio tenso, se essas conversas serão o primeiro passo para o fim da guerra ou apenas mais um capítulo de um conflito que insiste em não terminar.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Reuters

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