Fontes da Fifa avaliam que proximidade entre os presidentes pode ajudar a reduzir tensões geopolíticas e proteger o clima da competição.
Em um momento em que a geopolítica volta a influenciar grandes eventos globais, a Copa do Mundo de 2026 surge também como um teste diplomático. Nos bastidores da Fifa, cresce a avaliação de que a relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ser um fator decisivo para garantir estabilidade ao Mundial, que será disputado na América do Norte.
Fontes ligadas à entidade máxima do futebol afirmam que o diálogo entre os dois líderes tende a ser positivo para a organização do torneio, especialmente diante do atual cenário de tensão entre os Estados Unidos e países europeus. Para a Fifa, o Brasil exerce um papel estratégico de equilíbrio, tanto pelo peso político quanto pela força histórica de seu futebol no cenário internacional.
Encontro no Planalto e agenda ampliada
A leitura da Fifa ganhou força após a agenda de Lula na segunda-feira (26), quando o presidente recebeu, no Palácio do Planalto, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, o técnico da Seleção Brasileira, Carlo Ancelotti, e o presidente da CBF, Samir Xaud. Oficialmente, o encontro tratou da candidatura do Brasil para sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027.
Também houve a confirmação da intenção da CBF de receber o Mundial de Clubes em 2029, ainda em estágio inicial de negociação. No mesmo dia, Lula confirmou ter conversado por telefone com Donald Trump e sinalizou uma visita oficial a Washington, movimento observado com atenção por dirigentes do futebol internacional.
Brasil como fator de estabilidade
Segundo interlocutores da Fifa, uma relação amistosa entre Lula e Trump ajuda a reduzir incertezas em um ambiente considerado hoje “tensionado”, sobretudo pelas disputas comerciais e políticas entre os Estados Unidos e a Europa. Na avaliação interna, o Brasil teria “peso para a pacificação”, por abrigar uma das confederações mais influentes da América do Sul e por carregar a tradição de um futebol que mobiliza torcidas em todo o mundo.
A entidade acompanha com cautela temas sensíveis da política internacional, como ameaças de novas tarifas contra países europeus e até declarações sobre a possível “compra” da Groenlândia, território pertencente à Dinamarca. Por ora, a orientação da Fifa é manter silêncio institucional e evitar alimentar polêmicas.
Temor de boicote e atenção redobrada
Na semana passada, o vice-presidente da Federação Alemã de Futebol declarou que “chegou a hora” de discutir um possível boicote à Copa de 2026. A fala acendeu um alerta, embora a própria Fifa considere esse cenário “impensável”. Até o momento, nenhuma federação europeia formalizou qualquer movimento nesse sentido.
Internamente, há também uma preocupação clara em não atrair atenções negativas do governo Trump. A maioria dos jogos do Mundial, incluindo a abertura e a final, será disputada em solo americano. As políticas do presidente dos EUA em relação à imigração, ao combate ao tráfico vindo do México e às taxações contra o Canadá, as outras duas sedes do torneio, estão sob observação constante da entidade.
Em um campeonato que promete ser o maior da história, com três países-sede e um mundo atento, a Fifa sabe que a bola não rola apenas nos gramados. Relações diplomáticas, gestos políticos e pontes de diálogo podem ser tão decisivos quanto um gol em final de Copa. E, nesse tabuleiro, o Brasil volta a ser visto não só como potência esportiva, mas como peça-chave de equilíbrio em tempos de incerteza.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil













