Longe da polarização ideológica, cobrança nas rodovias vira instrumento político e ameaça pesar ainda mais no bolso da população rondoniense.
Quando a política insiste em transformar um problema concreto em espetáculo, quem paga o preço são as famílias, os trabalhadores e toda a economia local. É impossível olhar para a BR-364, coração logístico de Rondônia, sem sentir a frustração de quem já enfrenta tarifas elevadas sem ver melhorias proporcionais na rodovia. São muitos quilômetros de promessa, poucos de duplicação e a sensação de que, em ano eleitoral, a população virou troco de campanha.
O que está em jogo com o pedágio
A cobrança de pedágio eletrônico na BR-364 entrou em vigor em janeiro, com um sistema free flow que registra automaticamente a passagem dos veículos por pórticos ao longo da rodovia concedida à empresa Nova-364, sem cancelas físicas, mas com cobrança em até 30 dias, sob pena de multas e pontos na carteira.
O que tinha tudo para ser uma modernização foi recebido com preocupação por motoristas, transportadores e setores produtivos porque, na prática, as melhorias ainda não apareceram de forma convincente e a cobrança já começou.
Insatisfação que vira protesto
Nos últimos dias, a reação popular tem ganhado expressão, com caminhadas e protestos de moradores e até empresários que saem com cartazes e vídeos contra o pedágio considerado “abusivo” e implementado antes de qualquer avanço significativo na duplicação da via.
Nas redes sociais, vídeos e postagens mostram moradores de Jaru e outras cidades denunciando o custo elevado e a falta de diálogo com a população antes da implementação do sistema.
Promessas infladas e pouca duplicação
Um dos pontos mais criticados é que, apesar de a concessionária e as autoridades defenderem que investimentos serão feitos na rodovia, a extensão efetivamente duplicada será mínima frente à dimensão total da BR-364 no estado; algo que muitos consideram insuficiente diante das tarifas elevadas.
Relatos de caminhoneiros e transportadores indicam que a nova cobrança pode impactar significativamente os custos de transporte, com estimativas de acréscimos que chegam a até 15 % nos custos logísticos para quem trafega na rodovia, refletindo no preço de mercadorias e serviços nas cidades cortadas pela BR-364.
Eleições, política e “novela” dos pedágios
Com as eleições de 2026 se aproximando, o pedágio se tornou mais que uma pauta técnica: virou bandeira de discursos prontos para uso eleitoral. Políticos de diferentes espectros aparecem em protestos pela BR-364, alguns na chuva, outros em vídeos compartilhados, todos prometendo soluções e mudanças, muitas vezes sem propostas claras ou compromissos concretos.
Esse movimento lembra os debates antigos sobre pedágios em outros estados, como São Paulo ou Paraná, onde também houve polêmica e validação judicial dos contratos de concessão, inclusive pelo STF em situações semelhantes no passado. Embora a cobrança seja contestada por motoristas, a Justiça Federal dificilmente deve anular a concessão ou reduzir tarifas simplesmente por pressão política, especialmente quando as regras contratuais e de fiscalização da ANTT já foram cumpridas.
Impacto que vai além de quem trafega
A cobrança não atinge apenas quem passa pela rodovia. Quando o transporte de produtos agrícolas, alimentos e insumos fica mais caro devido ao pedágio, esse custo acaba repassado à população em preços mais altos em supermercados, farmácias e serviços essenciais. A BR-364 é a principal artéria de integração em Rondônia; uma estrada que muitos dependem para trabalhar, estudar e acessar serviços de saúde. A falta de infraestrutura adequada, somada à cobrança alta sem retorno imediato em melhorias tangíveis, agrava o sentimento de abandono e injustiça.
O pedágio na BR-364 hoje representa mais que um contrato de concessão: ele simboliza a tensão entre teoria e realidade, entre promessas e experiência diária das pessoas. Em ano eleitoral, essa frustração legítima corre o risco de ser usada como moeda política barata. É urgente que as lideranças, longe de discursos vazios, ofereçam transparência, prazos e resultados concretos. Porque, no fim das contas, não se trata apenas de uma tarifa: trata-se da dignidade de quem vive, trabalha e constrói a vida no Norte do país e que merece respeito, responsabilidade e soluções reais.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













