Em depoimento ao STF, banqueiro reconhece dificuldades de liquidez, atribui crise a mudanças no FGC e afirma ter sido surpreendido por operações envolvendo a Tirreno.
O reconhecimento veio de forma direta e carregado de tensão. Ao prestar depoimento ao Supremo Tribunal Federal, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, admitiu que a instituição atravessava uma crise de liquidez, lançando luz sobre um dos episódios mais sensíveis do sistema financeiro recente e reforçando a gravidade das investigações em curso. O caso envolve bilhões de reais, instituições públicas e decisões que podem ter impactos profundos no mercado bancário.
O depoimento foi prestado no dia 30 de dezembro e, segundo Vorcaro, embora a crise não fosse nova, o banco se manteve solvente e honrando compromissos até meados de novembro. Ainda assim, a admissão pública do problema marca um ponto de inflexão na narrativa da defesa e acende um alerta sobre os riscos estruturais do modelo adotado pelo Banco Master.
Crise de liquidez e dependência do FGC
De acordo com o banqueiro, a crise teria sido provocada por mudanças no regulamento do Fundo Garantidor de Créditos, base central do plano de negócios da instituição desde 2018. Vorcaro afirmou que o modelo do banco era totalmente atrelado ao FGC e que isso sempre foi informado ao Banco Central.
Segundo ele, alterações no fundo, que teriam ocorrido sob pressão de grandes bancos, afetaram diretamente a capacidade de captação do Master. Ainda assim, defendeu que o uso do FGC estava dentro das regras vigentes à época e fazia parte do jogo do sistema financeiro.
R$ 12 bilhões não ressarcidos ao BRB
Outro ponto sensível abordado no depoimento foi a dívida estimada em cerca de R$ 12 bilhões com o Banco de Brasília. Questionado sobre a falta de ressarcimento, Vorcaro afirmou que foi surpreendido pelo desfazimento em grande volume de créditos bancários originados pela empresa Tirreno, o que teria comprometido o fluxo financeiro necessário para honrar o compromisso.
A explicação adiciona mais um elemento de complexidade ao caso, que já envolve diferentes agentes, operações estruturadas e possíveis falhas de governança, agora sob o crivo do Supremo.
No fim, o depoimento de Daniel Vorcaro vai além de uma defesa técnica. Ele escancara fragilidades, provoca reflexões sobre a dependência de mecanismos de proteção e expõe como decisões regulatórias podem redefinir destinos financeiros. Para o leitor, fica a pergunta inevitável: quem paga o preço quando um banco admite a crise, mas os bilhões seguem sem destino certo?
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil













