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Irã ameaça reagir após UE classificar Guarda Revolucionária como terrorista

Teerã fala em “consequências perigosas”, acusa Europa de agir a mando dos EUA e de Israel e alerta para risco de guerra em meio à escalada de tensões no Oriente Médio.

A retórica subiu de tom e o clima internacional ficou ainda mais pesado. Em meio a um cenário já marcado por desconfiança, sanções e ameaças militares, o Irã reagiu duramente à decisão da União Europeia de classificar a Guarda Revolucionária Islâmica como organização terrorista, alertando que a medida pode desencadear “consequências perigosas” e empurrar a região para um novo patamar de instabilidade.

A designação foi aprovada na quinta-feira (29), durante reunião dos ministros das Relações Exteriores da UE, em Bruxelas, como resposta à repressão violenta do regime iraniano contra protestos antigovernamentais. Para Teerã, no entanto, a decisão representa uma provocação direta e um alinhamento explícito às posições dos Estados Unidos e de Israel.

Reação dura de Teerã e críticas à Europa

Em comunicado divulgado pela agência estatal IRNA, o Estado-Maior das Forças Armadas do Irã classificou a decisão europeia como “ilógica, irresponsável e maliciosa”. O texto acusa os líderes do bloco de atuarem em obediência às políticas de Washington e Tel Aviv e afirma que a Guarda Revolucionária tem papel central no combate a grupos extremistas, incluindo o Estado Islâmico.

A nota também traz um aviso direto: segundo o regime iraniano, “as consequências perigosas desta decisão hostil e provocativa recairão diretamente sobre os formuladores de políticas europeus”.

Posição da União Europeia

Do lado europeu, o tom foi igualmente firme. Ao anunciar a decisão, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou que a repressão promovida pelo regime iraniano não poderia ficar sem resposta. Segundo ela, “qualquer regime que mata milhares de seus próprios cidadãos está caminhando para a sua própria destruição”.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reforçou a posição, afirmando que o termo “terrorista” é apropriado para um regime que esmaga brutalmente protestos de seu próprio povo.

Risco de escalada regional

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, acusou a Europa de intensificar as tensões e aumentar o risco de uma guerra generalizada no Oriente Médio. Em publicação na rede social X, afirmou que, enquanto alguns países trabalham para evitar um conflito de grandes proporções, os governos europeus estariam “atiçando as chamas”.

Araghchi classificou a decisão como um “grave erro estratégico” cometido a mando dos Estados Unidos e alertou que, caso um conflito ecloda, a Europa também sofreria impactos severos, incluindo uma alta expressiva nos preços da energia.

O que é a Guarda Revolucionária Islâmica

Criada em 1979, após a Revolução Islâmica, a Guarda Revolucionária Islâmica opera de forma independente das Forças Armadas regulares do Irã. Ela possui exército, marinha, força aérea, serviços de inteligência e forças especiais próprias, respondendo diretamente ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Estima-se que a IRGC tenha entre 150 mil e 190 mil membros, incluindo a Força Quds, unidade de elite já designada como terrorista pelos Estados Unidos em 2007. Outro braço importante é a milícia Basij, com cerca de 450 mil integrantes, frequentemente apontada como peça-chave na repressão a protestos internos.

Histórico de sanções e tensão com os EUA

Os Estados Unidos classificaram a Guarda Revolucionária como organização terrorista estrangeira em 2019, durante o primeiro mandato de Donald Trump. À época, Washington responsabilizou o Irã pelas mortes de 608 militares americanos no Iraque entre 2003 e 2011, atribuídas a ações de grupos ligados à IRGC.

Agora, em meio a novas ameaças de Washington de atacar o Irã, Teerã anunciou uma ampliação significativa de suas capacidades militares. O regime afirma ter incorporado mil “drones estratégicos” ao seu arsenal e informou que realizará exercícios navais com munição real no Estreito de Ormuz, rota por onde passa mais de um quinto do petróleo comercializado no mundo.

Medida simbólica, impacto real

Analistas avaliam que a decisão da União Europeia tem mais peso político do que efeitos práticos. Para Trita Parsi, vice-presidente do Quincy Institute for Responsible Statecraft, a medida tende a ter impacto limitado, já que as relações comerciais entre Europa e Irã são hoje praticamente inexistentes.

Segundo ele, experiências anteriores mostram que esse tipo de sanção não alterou o comportamento do regime iraniano. “Os Estados Unidos classificam a IRGC como organização terrorista há anos e, ainda assim, aqui estamos, à beira da guerra”, afirmou.

Enquanto isso, o secretário-geral da ONU, António Guterres, fez um apelo para que as partes priorizem a diplomacia e evitem uma crise com consequências devastadoras para a região.

Entre ameaças, demonstrações de força e decisões políticas carregadas de simbolismo, o mundo acompanha, apreensivo, mais um capítulo de um conflito que parece se aproximar perigosamente de um ponto sem retorno.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Getty Images

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