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Lula busca reaproximação com Alcolumbre após impasse sobre indicação de Messias ao STF

Presidente do Senado aguarda gesto político do Planalto para selar retomada de confiança.

Na política, há silêncios que dizem mais do que discursos. E é nesse clima de gestos contidos, expectativas veladas e feridas ainda sensíveis que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta reconstruir pontes com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Em 2026, a relação entre os dois entra numa fase delicada de revisão, marcada menos por rupturas explícitas e mais por um mal-estar que insiste em não se dissipar.

Embora tenham conversado no fim do ano passado, interlocutores avaliam que o encontro não foi suficiente para restabelecer plenamente a sintonia política entre Planalto e Senado. O diálogo existiu, mas o efeito foi desigual: Lula saiu satisfeito; Alcolumbre, cauteloso. Para aliados do senador, ainda falta um sinal concreto de confiança por parte do presidente da República.

A origem do desgaste

O ponto de inflexão na relação ocorreu em 2025, durante a disputa por uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Ao indicar o então advogado-geral da União, Jorge Messias, Lula contrariou expectativas de Alcolumbre, que defendia o nome do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco. A escolha abriu uma fissura política que rapidamente extrapolou os bastidores.

O mal-estar se traduziu em recados públicos e indiretas institucionais. Alcolumbre chegou a marcar a sabatina de Messias no Senado, mas recuou diante da ausência da mensagem presidencial formal, etapa tradicional do rito. O gesto foi interpretado como um aviso claro de que a relação não seguia nos trilhos.

Lealdade cobrada nos bastidores

Nos círculos próximos ao presidente do Senado, há a percepção de que Alcolumbre atuou como anteparo ao governo em momentos decisivos, especialmente quando a Câmara dos Deputados adotou posições mais hostis ao Planalto. Votações sensíveis, como a PEC da Blindagem e o PL Antifacção, são citadas como exemplos de quando o Senado funcionou como linha de contenção.

Essa leitura reforça o sentimento de que a fidelidade política demonstrada não foi devidamente reconhecida. Por isso, a conversa de dezembro foi vista apenas como um passo inicial. O que Alcolumbre espera agora é um gesto mais explícito, capaz de reequilibrar a relação e restaurar a confiança mútua.

Agenda internacional e interesses convergentes

Apesar das rusgas, o pragmatismo fala alto. Em 2026, Alcolumbre deve desempenhar papel estratégico em uma das principais apostas internacionais do governo Lula: a tentativa de destravar a ratificação do acordo entre Mercosul e União Europeia. No Senado, onde há resistência de setores do agronegócio e da ala conservadora, o presidente da Casa é visto pelo Planalto como peça-chave para organizar maioria e evitar obstruções.

Paralelamente, Lula trabalha para ampliar sua base no Senado, de olho em um cenário político mais hostil e na possibilidade de uma ofensiva da direita. Nesse contexto, o presidente também tenta convencer Rodrigo Pacheco a disputar o governo de Minas Gerais, buscando garantir um palanque forte em um estado estratégico.

Uma aliança por necessidade

Curiosamente, os interesses se cruzam. Uma bancada mais alinhada ao governo interessa a Lula, mas também a Alcolumbre, que vê no fortalecimento do Senado uma forma de conter o avanço do bolsonarismo e evitar uma presidência da Casa hostil ao Supremo Tribunal Federal.

No curto prazo, a equação empurra Lula e Alcolumbre para uma reaproximação menos afetiva e mais pragmática. Não se trata de apagar o passado recente, mas de reconhecer que, na política, alianças muitas vezes sobrevivem não pela afinidade, e sim pela necessidade. Resta saber se o próximo gesto será suficiente para transformar cautela em confiança ou se o silêncio continuará falando mais alto.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Agência Brasil

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