Especialistas apontam cenário semelhante a 2022 e veem pouco espaço para uma candidatura de centro em 2026.
Quatro anos se passaram desde uma das disputas mais intensas da história recente do país, mas o sentimento que atravessa o eleitorado permanece praticamente o mesmo. Às vésperas de mais uma eleição presidencial, o Brasil chega a outubro de 2026 ainda dividido, com discursos inflamados, identidades políticas cristalizadas e um ambiente que segue marcado mais pela rejeição ao adversário do que pela construção de consensos.
Em 2022, o segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) expôs um país rachado ao meio. Lula venceu por uma margem apertada, pouco mais de 2,1 milhões de votos, encerrando uma disputa que entrou para a história como a mais polarizada do período democrático. Agora, mesmo com mudanças relevantes no tabuleiro político, analistas avaliam que o clima de enfrentamento deve se repetir.
Polarização que veio para ficar
Para o cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), a polarização deixou de ser um episódio pontual e passou a fazer parte da engrenagem da política brasileira. Segundo ele, trata-se de um fenômeno que se consolidou e que tende a continuar influenciando as disputas eleitorais por um longo período.
Couto lembra que o país já viveu outros momentos de polarização, como nas eleições travadas entre PT e PSDB, mas destaca que a diferença atual está no grau de radicalização da direita. Na avaliação do professor, o campo progressista permanece representado majoritariamente pelo PT, enquanto o outro polo se tornou mais extremo, ampliando a distância entre os lados.
Rejeição cruzada e desgaste do bolsonarismo
Na mesma linha, o professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Ranulfo Melo, aponta que o eleitorado ainda opera sob a lógica da rejeição cruzada. Para ele, quem se identifica com o petismo tende a se posicionar contra o bolsonarismo e vice-versa, reforçando um cenário de pouca permeabilidade ao diálogo.
Ranulfo, no entanto, observa sinais de enfraquecimento do bolsonarismo em relação a 2022. Entre os fatores, ele cita a perda de capacidade de mobilização de massas e a fragmentação do campo da direita, que hoje conta com múltiplas pré-candidaturas disputando o mesmo eleitorado.
Direita fragmentada e novos nomes no jogo
Com Jair Bolsonaro inelegível após condenação por liderar um plano de golpe, o senador Flávio Bolsonaro surge como o principal nome do PL para a disputa presidencial, escolhido pelo próprio pai como herdeiro político. Do outro lado, Lula, mesmo sem oficializar a pré-candidatura, tem sinalizado que deve buscar a reeleição.
Paralelamente, outras forças tentam ocupar espaço. O PSD, por exemplo, passou a concentrar três possíveis presidenciáveis após a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, juntando-se a Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ratinho Junior, do Paraná. A definição do nome do partido deve ocorrer até abril. Já o partido Missão, ligado ao MBL, também anunciou a intenção de lançar um candidato como alternativa à direita bolsonarista.
Existe espaço para o centro?
Para Bruno Bolognesi, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), apesar de o sistema partidário favorecer a polarização, há um contingente expressivo da população que não se identifica com os extremos. Segundo ele, existe espaço no eleitorado para um discurso mais conciliador, embora esse espaço ainda não se traduza em viabilidade real no topo da disputa.
Cláudio Couto concorda que uma terceira via enfrenta enormes dificuldades para se consolidar, avaliando como improvável que uma candidatura de centro se torne competitiva. Ranulfo vai além e é categórico ao afirmar que o centro político está fragilizado e sem condições de romper a lógica atual.
Um país que vota, mas segue dividido
Além da Presidência da República, os brasileiros irão escolher governadores, senadores, deputados federais e estaduais no primeiro turno marcado para 4 de outubro. Mais do que uma escolha de nomes, o pleito de 2026 promete ser, mais uma vez, um espelho das tensões acumuladas ao longo dos últimos anos.
O desafio que se impõe ao país não é apenas eleitoral, mas simbólico. Enquanto a polarização continuar ocupando o centro do debate, o Brasil seguirá votando sob o peso da divisão, em um ciclo que se repete e deixa no ar uma pergunta incômoda: até quando a política será mais sobre confrontar o outro do que sobre reconciliar o país consigo mesmo?
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Estadão Conteúdo/CNN Brasil













