Contratos milionários, suspeitas de lavagem de dinheiro e influência política colocam o Banco Master no centro de duas investigações no Congresso e ampliam a tensão entre Parlamento e Supremo.
Em meio a uma crescente desconfiança da sociedade sobre os limites entre poder, dinheiro e influência institucional, o Congresso voltou a lançar luz sobre o Banco Master, num movimento que mistura investigação criminal, embate político e questionamentos éticos que alcançam o Supremo Tribunal Federal. O tema, que já vinha gerando inquietação nos bastidores de Brasília, ganhou novos contornos nesta semana e promete seguir no centro do debate público.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, protocolou pedidos de convocação da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, além da quebra dos sigilos telefônico, bancário e fiscal. No mesmo momento, a CPMI do INSS decidiu adiar a votação da quebra de sigilo bancário do Banco Master, ampliando a sensação de que o caso avança em diferentes frentes, mas enfrenta resistências e disputas de timing político.
Contrato milionário e suspeitas de irregularidades
No requerimento apresentado à CPI do Crime Organizado, Alessandro Vieira sustenta que o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes firmou contrato com o Banco Master no valor de R$ 129 milhões. Para o senador, a cifra está muito acima dos parâmetros usuais de mercado para os serviços prestados, como uma queixa-crime por calúnia, o que levanta a suspeita de simulação de negócio jurídico.
O parlamentar cita investigações da Operação Carbono Oculto, que apontam que o Banco Master teria sido capitalizado por meio de fraudes e recursos oriundos do tráfico de drogas. Segundo o texto, esses valores teriam sido operacionalizados pela gestora CBSF DTVM, antiga Reag Trust, por meio da emissão de CDBs.
Para Vieira, há indícios concretos de que os pagamentos feitos ao escritório de advocacia possam ter origem ilícita, o que, em tese, configuraria crime de lavagem de dinheiro, conforme a Lei nº 9.613/98.
Cronologia sob suspeita e possível tráfico de influência
O requerimento também chama atenção para a data de constituição de uma nova banca de advocacia em Brasília, em 22 de setembro de 2025, apenas dois meses antes da liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, ocorrida em novembro do mesmo ano. Na avaliação do senador, a proximidade temporal reforça a suspeita de manobras de estratificação patrimonial.
Além disso, Alessandro Vieira afirma que o tratamento prioritário dado a esses pagamentos pelo CEO do banco, em detrimento de outros credores, exige esclarecimentos sobre eventual tráfico de influência e exploração de prestígio junto às instâncias superiores do Judiciário e à cúpula da administração pública.
CPMI do INSS adia votação sobre sigilo do Banco Master
Enquanto a CPI do Crime Organizado avança com novos pedidos, a CPMI do INSS decidiu, nesta quinta-feira (5), adiar a votação da quebra de sigilo bancário do Banco Master referente aos últimos dez anos. Segundo o presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), a retirada de pauta foi acordada entre líderes da oposição e da base governista.
Os requerimentos tinham como objetivo apurar possíveis irregularidades envolvendo empréstimos consignados vinculados ao banco. De acordo com o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), o adiamento visa ajustar o marco temporal das informações solicitadas e alinhar o foco da investigação ao tema central da CPMI, que são os consignados.
A expectativa é que os pedidos relacionados ao Banco Master retornem à pauta no dia 26 de fevereiro, data em que o empresário Daniel Vorcaro, dono do banco, é esperado para prestar depoimento à comissão.
Sigilos, decisões do STF e prisão de Vorcaro
Outro requerimento adiado solicitava à Anac informações detalhadas sobre voos, destinos e passageiros de aeronaves registradas em nome da Viking Participações Ltda, empresa da qual Vorcaro é sócio-fundador.
Em dezembro, a CPMI aprovou tanto a convocação obrigatória de Vorcaro quanto a quebra de seu sigilo e o envio de relatórios de inteligência financeira. No entanto, os dados foram retirados do âmbito da comissão por decisão do ministro Dias Toffoli, do STF, que impôs sigilo à investigação e determinou que as informações ficassem sob custódia da presidência do Senado.
Após apelos dos integrantes da CPMI e uma reunião entre Carlos Viana e Toffoli, o ministro teria sinalizado que os dados poderão ser liberados após a análise completa da documentação pela Polícia Federal.
Vorcaro foi preso em novembro de 2025 durante a primeira fase da operação da PF que apurou uma fraude financeira estimada em R$ 12 bilhões envolvendo o Banco Master. A prisão preventiva foi revogada no fim do mesmo mês pelo Tribunal Regional Federal, e ele passou a cumprir medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. As investigações culminaram na liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central.
Pedidos de prisão e novos avanços da CPMI
Na mesma sessão, a CPMI também adiou a votação do pedido de prisão do ex-ministro do Trabalho e Previdência e ex-presidente do INSS, José Carlos Oliveira, que já prestou depoimento à comissão e negou envolvimento nas fraudes.
Por outro lado, os parlamentares aprovaram pedidos de prisão preventiva e de proibição de saída do país para investigados ligados ao esquema de fraudes nos consignados, além de quebras de sigilo e solicitações de relatórios de inteligência financeira de pessoas físicas e jurídicas relacionadas aos investigados. As solicitações de prisão serão encaminhadas ao STF, onde o relator do caso é o ministro André Mendonça.
A comissão também aprovou pedido à Febraban para o envio de relatórios e dados sobre fraudes em empréstimos consignados e ouviu, nesta quinta-feira, o atual presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, que prometeu esclarecer a atuação do instituto e as medidas adotadas para devolução de valores descontados de forma irregular.
Entre o poder e a confiança pública
Em um momento de descrença generalizada nas instituições, o avanço simultâneo dessas investigações coloca em xeque não apenas a conduta de agentes econômicos e políticos, mas também os limites éticos do poder. Mais do que apurar crimes, o Congresso enfrenta o desafio de responder a uma sociedade que cobra transparência, responsabilidade e igualdade de regras, independentemente de cargos, sobrenomes ou relações de influência.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Jornal Midiamax













