MPRO sustenta que crime foi motivado por sentimento de posse e praticado com crueldade dentro de instituição de ensino.
A dor ainda ecoa pelos corredores da faculdade, nas salas de aula e na memória de quem convivia com ela. A morte da professora Juliana Mattos de Lima Santiago não é apenas mais um número em estatísticas de violência contra a mulher: é a interrupção violenta de uma trajetória dedicada ao ensino, à justiça e ao serviço público. Em Porto Velho, o luto se mistura à indignação.
O Ministério Público de Rondônia denunciou, na última quinta-feira (19), o estudante acusado de matar a facadas a docente no dia 6 de fevereiro, dentro da faculdade Fimca, situada na zona Sul da capital. Juliana lecionava no curso de Direito e também atuava como agente da Polícia Civil. A denúncia foi formalizada pelo Ministério Público do Estado de Rondônia, por meio do coordenador do Núcleo de Apoio ao Júri, promotor Marcus Alexandre de Oliveira Rodrigues, e do promotor de Violência Doméstica, Júlio César Tarrafa.

Crime dentro da sala de aula
De acordo com o inquérito policial, o denunciado era aluno da professora. Na noite do crime, ele teria ido para a aula já portando um punhal. Após o término das atividades, aguardou que os colegas deixassem a sala e permaneceu sozinho com a docente.
Segundo a investigação, o ataque foi repentino. Juliana foi atingida por quatro golpes de faca, incluindo um que atingiu o coração. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos.
O fato de o crime ter ocorrido dentro de uma instituição de ensino superior; espaço que deveria simbolizar formação, diálogo e segurança, torna o episódio ainda mais chocante e amplia a sensação de vulnerabilidade entre estudantes e professores.
Motivo torpe e sentimento de posse
Na denúncia, o Ministério Público sustenta que o crime foi cometido por motivo torpe. O acusado, conforme apontam as investigações, não aceitava a recusa da professora às suas investidas. Movido por sentimento de posse e incapaz de lidar com a autonomia da vítima, teria transformado frustração em violência extrema.
A acusação também aponta qualificadoras como emprego de meio cruel e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, já que o estudante teria aguardado que a sala ficasse vazia para surpreendê-la. O ambiente fechado e a ausência de testemunhas diretas reforçam a tese de premeditação.
Além disso, o fato de o crime ter sido praticado em ambiente escolar foi considerado circunstância agravante.
Feminicídio e a urgência do debate
O caso é tratado como feminicídio qualificado: quando o assassinato de uma mulher ocorre em razão da condição de gênero, marcado por violência doméstica, menosprezo ou discriminação. Trata-se de uma das formas mais graves de violência previstas na legislação brasileira, com penas que podem ultrapassar 30 anos de prisão.
Mais do que um processo judicial, o caso escancara uma ferida social: a cultura do controle e da objetificação da mulher, que transforma rejeição em ódio e autonomia em ameaça. A sala de aula, que deveria ser espaço de conhecimento e construção de cidadania, virou cenário de uma tragédia anunciada por comportamentos possessivos e sinais de violência.
Juliana era professora, policial, filha, colega, referência para muitos alunos. Sua morte deixa não apenas uma cadeira vazia, mas um alerta urgente. Até quando mulheres precisarão pagar com a própria vida por dizer “não”? A resposta que a sociedade der a essa pergunta dirá muito sobre o país que queremos construir.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Gerência de Comunicação Integrada (GCI) e Portal Migalhas













