Após a ação que culminou na morte de Nemesio Oseguera Cervantes, onda de violência atinge diversas regiões e deixa dezenas de mortos entre agentes, criminosos e civis.
A notícia da morte de Nemesio Oseguera Cervantes, conhecido como El Mencho, chegou acompanhada de dor e turbulência para o México. Embora seja um avanço histórico no combate ao narcotráfico, a operação militar que resultou na morte do chefão do Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG) desencadeou uma onda de violência e deixou um rastro trágico de vidas perdidas; entre elas agentes da lei, criminosos e civis, evidenciando o custo humano de enfrentar organizações criminosas profundamente entrincheiradas na sociedade.
A operação e os números da tragédia
Segundo o governo mexicano, pelo menos 25 membros da Guarda Nacional, um guarda penitenciário e um funcionário da Procuradoria-Geral do Estado morreram em ataques promovidos por integrantes do CJNG após a operação que matou El Mencho, informou o secretário de Segurança, Omar García Harfuch. Além disso, 30 membros da organização criminosa também foram mortos em confrontos subsequentes. Uma mulher civil também perdeu a vida nessas ações.
Ao todo, pelo menos 57 pessoas morreram como parte das hostilidades ligadas à operação, que foi executada por forças federais no estado de Jalisco, braço histórico e base de operações do cartel.
Quem era El Mencho e por que sua morte é simbólica
“El Mencho” chefiava uma das organizações criminosas mais poderosas e violentas do México. O CJNG emergiu em 2009 e rapidamente se consolidou como rival direto de grupos tradicionais, como o cartel de Sinaloa, assumindo papel central no tráfico de cocaína, metanfetaminas e, especialmente, **fentanil: uma droga sintética cujo impacto tem sido devastador, sobretudo nos Estados Unidos, onde o cartel foi classificado como organização terrorista pela administração Trump em 2025.
Ele era um dos fugitivos mais procurados pelas autoridades mexicanas e norte-americanas, que chegaram a oferecer US$ 15 milhões (aproximadamente R$ 78 milhões) por informações que levassem à sua captura. Sua ascensão e domínio no tráfico o tornaram uma figura quase lendária; temido pelas forças de segurança e reverenciado nas sombras por parte das comunidades sob controle do CJNG.
Reação em todo o país e violência generalizada
A morte de El Mencho não encerrou o problema, e sim intensificou um capítulo violento da guerra contra os cartéis. Em reação, membros do CJNG organizaram bloqueios e ataques em mais de 250 pontos em cerca de 20 estados, incendiando veículos, paralizando rodovias e gerando cenas de caos urbano, inclusive em cidades turísticas como Puerto Vallarta. Autoridades locais relataram cancelamento de voos, escolas fechadas e cidadãos sob ordens de abrigo imediato em meio ao surto de tensão.
Segundo relatos oficiais, a ação das forças federais em Tapalpa, Jalisco, foi violenta e contou com intenso combate armado; um dos momentos mais marcantes da história recente da segurança pública mexicana. El Mencho ficou ferido durante o confronto e morreu enquanto era transportado para a Cidade do México.
O impacto social e a próxima fase do combate ao crime organizado
A morte de El Mencho representa um marco simbólico no combate ao narcotráfico, mas também acende uma reflexão dolorosa sobre os custos humanos e sociais dessa guerra. O México enfrenta há décadas uma escalada de violência impulsionada por cartéis que operam como verdadeiros Estados paralelos, disputando território, poder e influência. A eliminação de um líder tão poderoso abre espaço político e criminal para que outros grupos tentem ocupar o vácuo, potencialmente levando a mais fragmentação e conflitos.
Neste momento, enquanto famílias choram, comunidades vivem sob medo e forças de segurança se reagrupam, resta uma pergunta difícil: até onde uma estratégia militar pode realmente enfraquecer uma estrutura criminosa tão arraigada sem investimentos profundos em prevenção, desenvolvimento social e políticas públicas que ofereçam alternativas reais às comunidades mais vulneráveis? O fim de uma cabeça pode significar o começo de um novo capítulo e o México, mais uma vez, se vê diante da tarefa de reconstruir a esperança em meio à violência.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: URI CORTEZ/AFP













