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Pressionada por atos da direita, votação de veto ao PL da dosimetria segue indefinida no Congresso

Oposição quer derrubar decisão de Lula que barrou projeto de redução de penas aos condenados pelo 8 de Janeiro, mas sessão conjunta ainda não tem data.

Em meio a discursos inflamados e bandeiras erguidas na Avenida Paulista, a cobrança foi clara: a oposição quer a derrubada do veto presidencial ao chamado PL da dosimetria. Mas, passado o ato do último domingo (1º), a realidade institucional impõe outro ritmo. No Congresso Nacional, a análise do veto segue sem data marcada e o tema permanece suspenso entre pressão política e articulações de bastidores.

O projeto, que reduz penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, foi integralmente vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para que o veto seja derrubado, são necessários ao menos 257 votos entre os 513 deputados e 41 votos entre os 81 senadores, em sessão conjunta da Câmara e do Senado.

Discurso na Paulista e pressão da oposição

Durante manifestação em São Paulo, o senador Flávio Bolsonaro, que se apresenta como pré-candidato ao Planalto, classificou o veto como “covarde” e prometeu mobilização para revertê-lo.

Segundo ele, a derrubada do veto seria o primeiro passo de uma batalha maior. Apesar da retórica, não houve cobranças diretas ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, a quem cabe convocar sessão conjunta para análise da decisão presidencial.

Sem essa convocação, o veto permanece na fila de deliberações, aguardando definição política.

Prazo constitucional e realidade política

Pela Constituição, o Congresso tem 30 dias para apreciar um veto presidencial após sua comunicação formal. Caso o prazo seja esgotado, o veto deve entrar na ordem do dia da sessão seguinte, com prioridade.

Na prática, no entanto, o rito costuma ser flexibilizado conforme acordos políticos. Atualmente, o Congresso acumula 77 vetos pendentes de análise. O mais antigo é de 2022, ainda do governo anterior. Os demais foram assinados por Lula.

A ausência de data para a próxima sessão conjunta reforça a percepção de que o tema dependerá menos do calendário formal e mais da correlação de forças entre governo, oposição e Centrão.

Por que Lula vetou o projeto

O veto foi assinado durante cerimônia que marcou os três anos das invasões às sedes dos Três Poderes, em Brasília. Na mensagem encaminhada ao Legislativo, o governo argumentou que o texto é inconstitucional e contraria o interesse público.

O PL da dosimetria havia sido aprovado em dezembro do ano passado, após meses de negociações que envolveram Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta. A proposta surgiu como alternativa à anistia ampla defendida inicialmente por setores da oposição, mas que não encontrou maioria no Congresso.

O texto final foi apelidado de anistia “light”, por prever ajustes nas penas sem extinguir completamente as condenações.

Impacto político e efeito Bolsonaro

Embora o discurso público foque nos condenados pelos atos de 8 de janeiro, o debate tem implicações políticas mais amplas. O texto aprovado poderia beneficiar também o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe após as eleições de 2022.

No ato de domingo, Flávio Bolsonaro minimizou esse efeito direto, afirmando que seu pai teria se “sacrificado” ao apoiar a negociação de um texto mais moderado quando a proposta tramitava no Congresso.

A discussão, portanto, extrapola a esfera jurídica e se insere na disputa pela narrativa sobre o 8 de Janeiro: um dos episódios mais sensíveis da política recente.

Enquanto a oposição pressiona nas ruas e o governo sustenta o veto com argumentos constitucionais, o relógio institucional segue correndo em ritmo próprio. A pergunta que paira sobre Brasília é simples e estratégica: quando e com que maioria o Congresso decidirá enfrentar esse tema que continua a dividir o país?

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Agência Senado

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