Operação aponta esquema milionário em descontos ilegais; parlamentar usa tornozeleira e aliados são presos.
A sensação de insegurança entre aposentados e pensionistas volta ao centro do debate nacional com mais uma fase de uma investigação que revela um esquema profundo e silencioso de fraudes. Nesta terça-feira, a Polícia Federal avançou sobre suspeitas de descontos indevidos no INSS, atingindo não apenas operadores do sistema, mas também figuras políticas, como a deputada Maria Gorete Pereira, colocando luz sobre um caso que pode ter causado prejuízos milionários a quem mais precisa.
A nova etapa da operação Sem Desconto, conduzida pela Polícia Federal em parceria com a Controladoria-Geral da União, cumpre 19 mandados de busca e apreensão, além de duas prisões e diversas medidas cautelares no Ceará e no Distrito Federal. As ordens foram autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Prisões e medidas cautelares
Foram presos Cecília Rodrigues Mota, ex-presidente de associações de aposentados, e o empresário Natjo de Lima Pinheiro. Ambos são apontados como peças importantes no funcionamento do esquema investigado.
Já a deputada Maria Gorete Pereira não foi presa, mas passou a ser monitorada por tornozeleira eletrônica e submetida a uma série de restrições. Entre elas, está a proibição de manter contato com outros investigados e testemunhas, frequentar entidades associativas com as quais teve ligação, exercer funções administrativas ou financeiras nesses espaços e deixar o município onde reside, exceto em deslocamentos para Brasília.
Além disso, a parlamentar deverá cumprir recolhimento domiciliar noturno e nos dias de folga, conforme previsto na legislação.
Esquema estruturado e prejuízo bilionário
De acordo com a decisão do ministro André Mendonça, os elementos reunidos indicam a existência de uma organização criminosa estruturada, com divisão clara de tarefas e atuação contínua. O grupo seria responsável por inserir dados falsos em sistemas oficiais para viabilizar descontos indevidos em benefícios previdenciários.
As investigações apontam para prejuízos que podem ultrapassar centenas de milhões de reais, atingindo diretamente aposentados e pensionistas em todo o país.
A apuração também mira crimes como estelionato previdenciário, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, reforçando a gravidade do caso e o alcance nacional da operação.
Quem é a deputada investigada
Natural de Juazeiro do Norte, no Ceará, Maria Gorete Pereira construiu uma trajetória que mistura educação e política. Formada em fisioterapia, atuou como professora por mais de duas décadas antes de ingressar na vida pública.
Sua carreira política começou nos anos 1980 e ganhou força a partir de 2003, quando assumiu o mandato de deputada federal. Ao longo dos anos, alternou períodos como titular e suplente, além de ter ocupado função no governo estadual como assessora especial para assuntos federativos.
Até o momento, a defesa da parlamentar não se manifestou. O espaço segue aberto.
O avanço da investigação reforça uma realidade incômoda: enquanto milhares de brasileiros dependem do INSS para sobreviver, há suspeitas de que o sistema tenha sido explorado por dentro, de forma organizada e persistente. Mais do que números e mandados judiciais, o caso expõe uma ferida social profunda e levanta uma reflexão urgente sobre confiança, responsabilidade e o preço que se paga quando os mais vulneráveis se tornam alvo de esquemas silenciosos.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados












