Aliados do candidato do PL avaliam que presidentes conservadores da região devem evitar manifestações públicas de apoio para preservar as relações diplomáticas com o governo brasileiro.
A disputa pelo Palácio do Planalto ultrapassa as fronteiras brasileiras e já desperta atenção de líderes internacionais. No entanto, enquanto o apoio do presidente argentino Javier Milei ganhou destaque e provocou forte repercussão política e diplomática, a própria campanha de Flávio Bolsonaro (PL) avalia que esse tipo de manifestação dificilmente será repetido por outros chefes de Estado da América do Sul.
Segundo interlocutores da campanha, a expectativa é de que presidentes conservadores da região adotem uma postura mais cautelosa, evitando declarações públicas em favor de Flávio Bolsonaro para não desgastar a relação institucional com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. A avaliação é de que Milei representa uma exceção no cenário político sul-americano.
Avaliação é de que pragmatismo deve prevalecer
Nos bastidores da campanha, aliados do senador entendem que, apesar da afinidade ideológica entre diversos governos de direita da região, a tendência é que prevaleça o pragmatismo diplomático. A prioridade desses países seria preservar as relações econômicas e institucionais com o Brasil, independentemente das preferências políticas.
A percepção ganhou força após a participação de Javier Milei na convenção nacional do PL, realizada no último sábado (25), quando o presidente argentino declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro e fez duras críticas ao presidente Lula e ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. As declarações ampliaram a tensão diplomática entre Brasil e Argentina.
Crise entre Brasil e Argentina ainda repercute
Após os ataques verbais de Milei, o governo brasileiro reagiu convocando o embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos. Em paralelo, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi chamado para consultas no Brasil.
Embora integrantes do Itamaraty avaliem que a crise diplomática começa a perder intensidade, ainda não foi definida a data para o retorno do diplomata brasileiro à capital argentina.
Governo aposta em relação institucional com outros líderes
Enquanto Milei tem defendido a chamada “onda azul”, expressão utilizada por ele para simbolizar o avanço de governos conservadores na América do Sul, a avaliação do governo brasileiro é diferente.
Segundo integrantes da diplomacia, outros presidentes da região, mesmo aqueles alinhados à direita, tendem a manter uma postura institucional nas relações com o Brasil. Entre os exemplos citados estão declarações atribuídas à presidente do Peru, Keiko Fujimori, além de gestos considerados conciliatórios do colombiano Abelardo de la Espriella e do presidente chileno José Antonio Kast, que, de acordo com o Itamaraty, têm priorizado o diálogo com o governo brasileiro.
Na avaliação do Palácio do Planalto, a influência política de Javier Milei sobre os demais governos sul-americanos permanece limitada. A expectativa é que os interesses econômicos, comerciais e diplomáticos continuem falando mais alto do que as divergências ideológicas, preservando canais de diálogo entre os países da região mesmo em meio ao ambiente eleitoral brasileiro.
Em um cenário de crescente polarização, a política externa também passa a refletir os movimentos da disputa presidencial. Ainda assim, os bastidores da diplomacia indicam que, para além das diferenças ideológicas, a estabilidade das relações entre os países vizinhos continua sendo tratada como prioridade, reforçando que o diálogo costuma sobreviver até mesmo aos momentos de maior tensão política.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Vittor Sales













