Aliados do candidato avaliam que impacto sobre patrocínios esportivos pode gerar desgaste para o presidente; governo afirma que clubes poderão buscar novas fontes de receita.
A disputa presidencial ganhou um novo componente capaz de mexer diretamente com um dos maiores símbolos de paixão popular no país: o futebol. A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a acompanhar de perto a reação de torcidas e clubes à Medida Provisória que proibiu as bets e aposta que o impacto sobre os patrocínios esportivos possa se transformar em novo ponto de desgaste para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Segundo aliados de Flávio, o cálculo interno é de que a repercussão da medida entre torcedores poderia representar uma perda de 1% a 2% das intenções de voto de Lula. Essa estimativa, porém, é uma avaliação da campanha e não corresponde a uma projeção eleitoral independente.
A estratégia ocorre em um momento de forte disputa pelo eleitorado e enquanto a campanha de Flávio tenta administrar também a repercussão do episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Nas redes sociais, aliados do candidato passaram a acompanhar o volume de manifestações relacionadas à proibição das apostas e às possíveis consequências para os clubes de futebol.
Patrocínios entram no centro da disputa
A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. A norma também prevê o encerramento das autorizações existentes e a retirada dos sites e aplicativos do ar durante o período de transição.
A medida tem impacto direto no futebol brasileiro porque diversas equipes mantêm contratos de patrocínio com empresas de apostas. Levantamentos publicados após o anúncio apontaram que a maior parte dos clubes da Série A possui ou possuía algum vínculo comercial com o setor, incluindo acordos de patrocínio máster.
O debate passou, então, a envolver não apenas a atividade das plataformas, mas também o futuro dos contratos que ajudavam a financiar clubes e outras propriedades esportivas.
Governo minimiza risco de perda de receita
Integrantes do governo têm sustentado que os clubes não necessariamente ficarão sem patrocinadores e que outras empresas poderão ocupar os espaços deixados pelas bets.
A discussão ganhou um exemplo concreto nesta semana. O CEO da Cimed, João Adibe Marques, ofereceu patrocínio a clubes após a proibição das apostas, sinalizando que empresas de outros setores podem enxergar oportunidade comercial nos espaços que serão desocupados.
Ao mesmo tempo, dirigentes de clubes passaram a discutir os efeitos financeiros da medida. A reação das equipes chegou a provocar o cancelamento de uma reunião que seria realizada com representantes do governo para tratar das consequências da proibição sobre o futebol.
Campanha tenta transformar medida em tema eleitoral
Para o grupo de Flávio, o debate sobre os patrocínios abre uma nova frente de disputa justamente em um setor com forte capacidade de mobilização popular.
A campanha acompanha manifestações de torcedores e clubes e tenta associar eventuais perdas financeiras à decisão do governo. O PT, por sua vez, sustenta que a medida representa um avanço no enfrentamento aos problemas relacionados às apostas e aposta na repercussão positiva da proibição.
O governo afirma que a mudança tem como objetivo enfrentar efeitos econômicos, sociais e de saúde associados às bets, incluindo endividamento e problemas relacionados ao uso excessivo das plataformas. A exposição de crianças e adolescentes às apostas também aparece entre as justificativas oficiais para a MP.
Flávio busca aproximação com católicos e evangélicos
Enquanto tenta explorar politicamente o debate sobre as bets, Flávio também tem buscado administrar a repercussão do episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
O candidato tem feito acenos tanto ao eleitorado católico quanto ao evangélico. Em entrevista a um podcast católico, chegou a comparar a circulação da informação falsa sobre a padroeira com a facada sofrida por seu pai, Jair Bolsonaro, durante a campanha presidencial de 2018.
A campanha também divulgou uma nota para explicar uma declaração feita por Flávio em agosto, quando afirmou que um de seus primeiros atos como presidente seria “decretar” que o Brasil pertence a Jesus Cristo.
Segundo a manifestação enviada pela equipe, a declaração se referia à intenção de fazer uma oração antes da leitura do termo de posse, como gesto simbólico de agradecimento e pedido de proteção e bênção para os brasileiros. A campanha também reafirmou que Flávio defende o respeito a todas as religiões e formas de expressão da fé.
Pastores tentam reduzir tensão entre católicos e evangélicos
A repercussão do episódio também levou lideranças evangélicas a se manifestarem. Uma nota divulgada em nome do Cimeb, Conselho Interdenominacional dos Ministros Evangélicos do Brasil, afirmou que católicos e evangélicos convivem em paz e negou a existência de qualquer iniciativa para cancelar feriados ou cultos religiosos.
O movimento ocorre justamente quando a campanha busca evitar que o episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida produza um afastamento entre segmentos religiosos que fazem parte da disputa pelo eleitorado.
Bets abrem nova frente na reta final
Enquanto a campanha presidencial entra em seus últimos dias, a proibição das bets acrescenta um novo elemento à disputa. De um lado, o governo apresenta a medida como resposta a um problema que considera de saúde pública e de proteção econômica das famílias. De outro, adversários exploram os possíveis efeitos sobre empresas, clubes, empregos, publicidade e patrocínios.
A própria MP ainda depende de análise do Congresso Nacional para se tornar definitiva. O prazo constitucional para deliberação vai até 23 de novembro, embora a medida já produza efeitos enquanto estiver em vigor.
Com o futebol entrando no centro da discussão, a disputa eleitoral ganha mais uma camada de complexidade. Entre torcedores preocupados com seus clubes, empresas que precisam reorganizar contratos e candidatos tentando transformar cada novo acontecimento em vantagem política, a reta final da eleição mostra que, no Brasil, poucos temas conseguem mobilizar tanto quanto futebol, fé e dinheiro. E agora os três estão, de diferentes formas, no mesmo campo de batalha eleitoral.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reprodução













