Planalto evita confronto direto com os EUA, mas reforça compromisso com o multilateralismo; Trump defende Bolsonaro e eleva tensão diplomática
Em meio a um cenário de tensões comerciais e declarações explosivas, o governo brasileiro tem adotado uma postura cautelosa diante das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Brics. Em postagem feita no domingo (6), o republicano afirmou que qualquer país alinhado ao bloco enfrentará uma tarifa adicional de 10% sobre suas exportações para os EUA, acusando o grupo de promover “políticas antiamericanas”.
A declaração de Trump ocorreu poucas horas após a divulgação do documento final da Cúpula do Brics, realizada no Rio de Janeiro, que reforçou o compromisso do bloco com o multilateralismo e criticou as ações restritivas ao comércio internacional.
Fontes do Planalto e do Itamaraty avaliam que as falas de Trump ainda estão no campo retórico e podem até fortalecer o discurso do Brics em favor da multipolaridade e da cooperação entre países emergentes. O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, afirmou que “os Brics estão fazendo a agenda do mundo”, em entrevista ao portal Brasil 247, sugerindo que a ofensiva americana apenas ressalta a relevância crescente do bloco.
Reação internacional e o papel do Brasil
A China, principal parceiro comercial do Brasil e um dos fundadores do Brics, respondeu à ameaça dizendo que o grupo “não busca confronto”, enquanto o Kremlin destacou que o Brics é formado por países com “visões comuns de cooperação baseadas em seus próprios interesses”.
A política de Trump de utilizar tarifas como instrumento de pressão já atingiu o Brasil neste ano, com a imposição de uma tarifa de 10%: a menor entre os países impactados, enquanto a China enfrentou tarifas de até 140%.
Internamente, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, minimizou os ataques e defendeu o diálogo: “O Brasil não é problema para os EUA”, afirmou. Já Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, criticou o protecionismo e reiterou a posição brasileira em defesa do comércio global baseado em regras.
Trump defende Bolsonaro e eleva tensão
A crise ganhou um novo capítulo com uma postagem de Trump nesta segunda-feira (7), em que o presidente americano saiu em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro. “O único julgamento que deve acontecer é o julgamento pelos eleitores no Brasil: chama-se eleição. DEIXEM BOLSONARO EM PAZ!”, escreveu Trump em sua rede, a Truth Social.
O gesto foi interpretado como uma tentativa de interferência nos assuntos internos do Brasil. Bolsonaro responde a investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposta tentativa de golpe após as eleições de 2022.
A resposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva veio em tom firme: “A defesa da democracia no Brasil é um tema que compete aos brasileiros. Não aceitamos interferência ou tutela de quem quer que seja. Ninguém está acima da lei”, disse.
A declaração de Lula foi vista como uma reafirmação do compromisso com o Estado Democrático de Direito e com a soberania nacional, num momento em que a polarização política interna e as disputas globais se entrelaçam.
Perspectivas
Com a aproximação da data de 9 de julho, imposta pelos EUA como prazo para redefinições tarifárias, o clima é de incerteza. A diplomacia brasileira busca preservar os laços comerciais com Washington: o segundo maior parceiro comercial do país, atrás apenas da China, sem abrir mão de sua atuação estratégica no Brics.
Enquanto isso, a aliança informal entre Trump e Bolsonaro continua mobilizando aliados e opositores no Brasil, alimentando o debate sobre interferência internacional, soberania e o futuro da democracia no país.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação












