Especialistas alertam para impacto direto nos preços, na economia e na confiança dos investidores com a combinação de alta de impostos e restrições comerciais.
A economia brasileira enfrenta um momento delicado, marcado por dois fatores que, juntos, formam uma “carga dupla” de impacto direto sobre o câmbio e o bolso do brasileiro: a volta da alta do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e o tarifaço anunciado por Donald Trump contra produtos brasileiros. Segundo especialistas ouvidos pela CNN, os efeitos já começam a ser sentidos no mercado e tendem a atingir desde grandes exportadores até pequenos empreendedores e consumidores comuns.
Mais do que medidas pontuais, os dois movimentos escancaram problemas estruturais, como a falta de previsibilidade jurídica e instabilidade regulatória, elementos que, na visão de analistas, comprometem a competitividade do Brasil e afastam investidores. “Investir no Brasil se torna uma das decisões mais arriscadas e incertas no momento”, alerta Roger Amarante, CFO da S8 Capital. Para ele, a combinação de aumento de custos operacionais com riscos institucionais gera um ambiente hostil para negócios e um freio no crescimento econômico.
Pressão cambial e risco de retração no PIB
A decisão do ex-presidente dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos importados do Brasil a partir de 1º de agosto já provoca estragos. Os setores de sucos, celulose, café, máquinas agrícolas e até aeronaves foram diretamente afetados. “Algumas empresas já pararam a produção e estão discutindo demissões em massa”, aponta o assessor de investimentos Guilherme Viveiros. A consequência pode ser uma retração no Produto Interno Bruto (PIB) e maior pressão sobre o dólar.
O outro gatilho veio do Supremo Tribunal Federal (STF). Em decisão recente, o ministro Alexandre de Moraes restaurou o aumento do IOF; proposta pelo governo federal e derrubada anteriormente pelo Congresso. A medida eleva a carga tributária sobre várias operações, como:
- Cartões internacionais: alíquota sobe de 3,38% para 3,5%
- Operações de câmbio e envio de moeda em espécie: novo IOF fixado em 3,5%
- Crédito para empresas, inclusive no Simples Nacional: IOF passa a 0,38%
- Seguros de vida com aportes elevados: tributação para valores acima de R$ 300 mil, subindo para R$ 600 mil em 2026
- Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FDICs): alíquota de 0,38%
Além do impacto direto no comércio exterior, o IOF afeta operações domésticas e cotidianas — como o parcelamento de compras, empréstimos pessoais, viagens e até pequenos envios de dinheiro ao exterior. “Pegar dinheiro emprestado no Brasil ficou mais caro”, observa Graziela Fortunato, professora da PUC-Rio.
Contágio nos preços e nas expectativas
O efeito imediato sobre os preços é ambíguo. Com o tarifaço, produtos que seriam exportados devem se voltar ao mercado interno, o que poderia gerar uma redução nos preços por excesso de oferta. No entanto, a instabilidade política e a menor entrada de dólares devem pressionar o câmbio e, com isso, encarecer bens e serviços.
A XP Investimentos alerta que os impactos macroeconômicos vão além: há risco real sobre o câmbio, o investimento estrangeiro direto e a inflação; especialmente se o Brasil reagir com medidas retaliatórias. Atualmente, os Estados Unidos são os maiores investidores no Brasil, com cerca de US$ 280 bilhões em participação societária.
A diretora da Oz Câmbio, Raissa Florence, chama atenção para o alcance da medida: mais de 20 milhões de brasileiros serão diretamente afetados com a volta do IOF, incluindo os 6 milhões que viajam anualmente ao exterior e os 18 milhões de pequenos e médios empreendedores que dependem de fornecedores e plataformas internacionais.
“Não é uma questão apenas de grandes empresários. O aumento da tributação será repassado ao consumidor final. Isso gera mais inflação, menor poder de compra e insegurança econômica”, pontua Florence.
Um cenário ainda nebuloso, mas com margem para ajuste
Apesar do mau humor no mercado, alguns analistas apontam que parte dos impactos já foi precificada. “O cenário continua tenso, mas agora está mais claro. E o mercado prefere um cenário deteriorado, porém previsível, do que um cenário incerto”, pondera André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica.
Ele destaca que, embora a inflação ainda esteja acima da meta de 3% do Banco Central, vem mostrando sinais de moderação. Com a taxa de juros ainda em patamares elevados (atualmente em 15% ao ano), o Brasil segue atrativo para investidores de curto prazo. “Se não houver novas tarifas mais duras por parte de Trump, o dólar pode até se valorizar nos próximos meses.”
Mas até que isso se confirme, o brasileiro segue enfrentando o peso da incerteza econômica, traduzida no câmbio instável, no encarecimento de produtos e no temor de novos desdobramentos políticos e fiscais. A “carga dupla” imposta pelo IOF e pelo tarifaço pode até ter efeitos distintos, mas, juntos, colocam mais pressão sobre uma economia que ainda tenta se reequilibrar.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













