Presidente da Câmara afirma que não há clima político para “anistiar quem planejou matar pessoas” e dados mostram que maioria da população também é contrária à medida.
A memória dos ataques de 8 de janeiro de 2023 ainda reverbera na sociedade brasileira. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), deixou claro nesta quinta-feira (14) que não há clima político na Casa para aprovar uma anistia “ampla, geral e irrestrita” para os participantes das invasões às sedes dos Três Poderes. O parlamentar reforça que a gravidade dos episódios exige responsabilidade e que a impunidade não pode se sobrepor aos valores democráticos.
Rejeição à anistia ampla na Câmara
Em entrevista à GloboNews, Motta afirmou: “Eu não vejo dentro da Casa um ambiente para, por exemplo, anistiar quem planejou matar pessoas. Não acho que tenha esse ambiente dentro da Câmara”. A declaração ocorre após aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pressionarem por medidas que incluíam a anistia total aos condenados pelos atos antidemocráticos.
O parlamentar destacou que, embora haja sensibilidade em casos de participantes que não tiveram papel central nos ataques, a solução adequada seria a revisão de penas, não uma anistia irrestrita. “Uma revisão poderia possibilitar progressão de regime, sem que seja fechado, mas sem comprometer a justiça”, explicou Motta.
Opinião pública também é majoritariamente contrária
Os dados da pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgados nesta quinta-feira (14), reforçam o cenário político. Mais da metade dos brasileiros: 51,2% se declara contrária à anistia ampla para os envolvidos nos ataques de 8 de janeiro, enquanto 46,9% são favoráveis. Apenas 1,9% dos entrevistados não souberam opinar.
A pesquisa ouviu 2.447 pessoas entre os dias 3 e 6 de agosto de 2025, com margem de erro de dois pontos percentuais. Comparado ao levantamento de março, a rejeição cresceu levemente, passando de 50,4% para 51,2%, e o apoio à anistia caiu de 47,8% para 46,9%.
Revisão de penas para casos menos graves
Motta enfatizou que a revisão de penas para participantes com papel secundário nos ataques é uma pauta que pode gerar consenso. “Há preocupação com pessoas que não tiveram papel central, que pela cumulatividade das penas acabaram recebendo condenações altas. É possível discutir progressão de regime de forma justa”, disse.
O presidente da Câmara também reforçou que qualquer projeto sobre o tema deve ser transparente e envolver discussões com o STF e o Executivo. “Ninguém quer fazer nada na calada da noite. O que aconteceu em 8 de janeiro foi muito grave e precisa ficar registrado para que esses episódios não se repitam”, afirmou.
Críticas a Eduardo Bolsonaro
Hugo Motta criticou a postura do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que solicitou licença do mandato para morar nos EUA e não pretende retornar, mantendo o cargo. “Quando parte para uma atuação contra o país que prejudica empresas e a economia, eu não acho razoável. Temos total discordância”, disse.
Segundo Motta, até dentro do próprio PL há descontentamento com ações de Eduardo. “Existem atitudes que não são apoiadas nem pelos aliados dele, porque são questões indefensáveis. Interesses pessoais não podem se sobrepor aos nacionais”, afirmou.
Repercussão e impacto
As declarações de Motta repercutiram nas redes sociais e na imprensa, dividindo opiniões entre apoiadores da anistia e aqueles que defendem punição proporcional. Para especialistas ouvidos pela imprensa, a posição do presidente da Câmara reflete um esforço de equilíbrio em um tema altamente polarizado, mostrando que, mesmo em meio a pressões políticas, há limites para a impunidade em episódios que abalaram a democracia brasileira.
Analistas políticos afirmam ainda que a posição de Motta tenta equilibrar justiça e sensibilidade social, mostrando que a impunidade não tem espaço, mas que há espaço para revisões de penas proporcionais.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













