Advogados argumentam falta de evidências e contestam delação de ex-ajudante de ordens no julgamento do núcleo 1 do plano de golpe.
O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou contornos dramáticos nesta quarta-feira (3), quando a defesa do ex-presidente apresentou sua sustentação oral, afirmando que não há provas concretas contra ele e que a pena máxima de 43 anos proposta pela Procuradoria-Geral da República (PGR) não seria natural. Desde cedo, a expectativa sobre a fala dos advogados criou tensão entre ministros, juristas e observadores do processo.
O advogado Celso Vilardi criticou duramente a delação de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, considerada central na acusação de um plano de golpe. “Esse homem não é confiável. Ele foi pego na mentira pela enésima vez e colocou sua voluntariedade em cheque”, disse Vilardi, acrescentando que “não há uma única prova” que vincule o ex-presidente aos crimes apontados. Para a defesa, Bolsonaro foi “dragado” para os fatos investigados, mas não atentou contra o Estado Democrático de Direito.
Os advogados também questionaram o uso das delações premiadas, especialmente diante de inconsistências nos depoimentos de Cid, que citou suposto plano de golpe, venda de joias sauditas e fraudes em cartões de vacinação. A defesa sustenta que a tentativa de aproveitar parcialmente a delação enquanto se reconhece sua “falsidade parcial” é injusta e carece de respaldo jurídico.
O núcleo 1 do julgamento reúne oito réus: Jair Bolsonaro, Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira, Walter Braga Netto, Anderson Torres, Alexandre Ramagem, Almir Garnier e Mauro Cid. Todos respondem a cinco crimes: organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. A exceção é Ramagem, que responde apenas a três crimes após suspensão da ação pela Câmara dos Deputados.
Após as sustentações orais de todas as defesas, os ministros da Primeira Turma do STF devem iniciar os votos na próxima terça-feira (9), decidindo sobre condenações ou absolvições.
Enquanto o país acompanha cada detalhe, o debate no STF reflete não apenas a disputa jurídica, mas o impacto de decisões que podem reverberar profundamente na democracia brasileira. O desfecho do julgamento promete testar os limites entre a política, o direito e a confiança da sociedade nas instituições, deixando claro que, em casos como este, a justiça é também um exercício de vigilância coletiva.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/STF













