Home / Mundo / Nepal mergulha em incerteza após queda de governo e dias de violência

Nepal mergulha em incerteza após queda de governo e dias de violência

País vive crise política e social, com protestos sangrentos, renúncia do premiê e ruas patrulhadas pelo Exército.

O Nepal atravessa dias de tensão e silêncio forçado. Depois de dois dias de confrontos que deixaram mortos e incêndios que atingiram o parlamento e a casa de uma ex-primeira-dama, a renúncia do primeiro-ministro Sharma Oli abriu um vácuo de poder. No lugar de lideranças políticas, quem apareceu em rede nacional foi o general Ashok Raj Sigdel, comandante do Exército, pedindo paz e diálogo para “normalizar a difícil situação” e garantir a segurança da população.

Mortes e destruição

Na terça-feira (9), pelo menos 19 manifestantes; a maioria jovens, foram mortos em protestos em frente ao parlamento, que terminou em chamas. No mesmo dia, vídeos mostraram a ex-primeira-dama Arzu Rana Deuba sendo agredida por homens que cercaram sua residência. O clima de violência fez o premiê anunciar sua saída do cargo, em meio ao avanço de uma onda de contestação popular contra políticos e instituições.

Sem liderança clara, o movimento de protesto não conseguiu se unir em torno de figuras como Balendra Shah, prefeito de Katmandu, que recusou o papel de líder. A volta da monarquia, derrubada em 2008, também não encontrou apoio popular suficiente.

Redes sociais como estopim

A decisão do governo de banir redes sociais e aplicativos de mensagens — como Facebook, WhatsApp, WeChat, Line e VK — foi apontada como gatilho para a crise. O bloqueio, anunciado no dia 4 e suspenso apenas no dia 8, afetou especialmente a comunicação de nepaleses com familiares no exterior, de onde vem boa parte do sustento das famílias.

Diplomatas afirmam que a queda do governo já era esperada diante do desgaste político e da escalada de mensagens de repúdio nas próprias plataformas digitais. Mas a violência de rua, que culminou em mortes e destruição de símbolos institucionais, expôs a fragilidade do país.

O olhar da região

A crise no Nepal preocupa os vizinhos. A China pediu nesta quarta-feira (10) que todas as forças políticas “lidassem adequadamente com os problemas internos” e restaurassem a ordem o quanto antes. O pedido ecoa temores de instabilidade em toda a região: Bangladesh e Sri Lanka já tiveram governos derrubados em meio a protestos nos últimos anos, enquanto Tailândia e Indonésia também enfrentam riscos de turbulência política.

Um país em suspenso

Nas ruas de Katmandu, soldados agora ocupam o espaço dos manifestantes. O silêncio que domina a capital, contrasta com a memória recente de fogo, gritos e violência. O Nepal, que já convive com fragilidades econômicas e sociais, vive mais uma encruzilhada em sua jovem democracia. O futuro, neste momento, depende menos das forças externas e mais da capacidade do próprio povo de reencontrar um caminho de estabilidade sem que a violência volte a ditar os rumos da história.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Any Ojha- AFP

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *