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Trump retorna à ONU como símbolo de uma nova ordem mundial

De alvo de risos a peça central nas disputas globais, presidente americano mostra como a geopolítica mudou em poucos anos.

Houve um tempo em que o nome de Donald Trump arrancava risos dentro da Assembleia Geral da ONU. Hoje, o cenário é bem diferente: o presidente dos Estados Unidos volta ao púlpito da instituição como figura central de uma nova ordem internacional marcada por rupturas, nacionalismos e desprezo crescente pelas estruturas multilaterais. A cena que antes parecia improvável: líderes mundiais disputando sua atenção e bajulação, agora se tornou realidade.

Da chacota ao protagonismo

Em 2018, o republicano foi ironizado ao exaltar conquistas de seu governo diante de diplomatas acostumados a discursos previsíveis e tecnocráticos. Sete anos depois, Trump chega à ONU consolidado como um líder que, gostem ou não, impôs mudanças profundas nas regras do jogo internacional. Ao esvaziar o sistema criado no pós-guerra, redefinir alianças e reduzir drasticamente o apoio dos EUA às instituições globais, ele se coloca não apenas como presidente de uma potência, mas como símbolo de uma era que questiona o multilateralismo.

Conflitos em aberto e promessas não cumpridas

Apesar do discurso de força, Trump não conseguiu entregar o que mais prometeu: a resolução de conflitos em Gaza e na Ucrânia. Ambas as guerras continuam devastando vidas e alimentando tensões. A estratégia de substituir a diplomacia coletiva por relações diretas com líderes como Benjamin Netanyahu e Vladimir Putin não rendeu os frutos esperados. Mesmo assim, Trump insiste em seu papel de mediador, já sendo reconhecido em algumas negociações, como entre Armênia e Azerbaijão.

Relação conturbada com a ONU

A ONU, que deveria ser palco de cooperação, tornou-se alvo preferencial das críticas de Trump. Durante seus mandatos, os EUA cortaram financiamentos cruciais para ajuda humanitária e operações de paz, além de se retirarem de órgãos como o Conselho de Direitos Humanos, a UNESCO e a Organização Mundial da Saúde. O presidente americano também deixou claro que vê a instituição como hostil a Israel, alinhando-se frequentemente a posições contrárias à maioria dos países-membros.

Encontros e tensões paralelas

À margem da Assembleia, Trump se reúne com líderes que ilustram bem os novos arranjos globais: de Volodymyr Zelensky, que enfrenta a invasão russa, a parceiros estratégicos do Oriente Médio, passando por Ursula von der Leyen e Javier Milei. Ao mesmo tempo, o republicano se prepara para encontros tensos com países de maioria muçulmana, que pressionam por soluções no conflito em Gaza.

De “homem-foguete” ao Nobel da Paz?

Trump sempre cultivou o estilo performático, marcado por frases de impacto e bravatas. Chamou Kim Jong-un de “homem-foguete” e ameaçou “destruir totalmente a Coreia do Norte”. Hoje, no entanto, ele busca ser visto como candidato ao Nobel da Paz, alegando que obteve avanços onde a ONU falhou. O contraste entre a caricatura inicial e a posição de protagonismo atual mostra como a política internacional pode ser volátil  e como a força pessoal de um líder ainda é capaz de remodelar instituições.

No fim das contas, Trump não mudou apenas o tom dos discursos na ONU. Ele alterou a forma como o mundo se olha, como as alianças se constroem e como as instituições são percebidas. Se antes suas palavras provocavam risadas, agora ecoam como sinais de um tempo em que o riso deu lugar à incerteza. E essa transformação, mais do que sobre Trump, fala sobre todos nós: sobre o futuro que aceitamos construir e sobre a fragilidade de um equilíbrio global que parecia sólido, mas que hoje se mostra cada vez mais instável.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/Reuters

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