Após meses de deslocamento e destruição, civis esperam reconstruir suas vidas enquanto acordo mediado pelos EUA busca pôr fim a dois anos de conflito.
A poeira da guerra começa a se assentar, mas o retorno à normalidade será lento e delicado. Milhares de palestinos deslocados começaram a caminhar em direção ao norte da Faixa de Gaza nesta sexta-feira (10), após a implementação de um cessar-fogo entre Israel e o Hamas e a retirada parcial das tropas israelenses de algumas áreas urbanas. A Cidade de Gaza, uma das regiões mais atingidas nos últimos dias, recebe novamente os moradores que haviam sido forçados a se refugiar no sul do território.
Apesar do clima de esperança, autoridades alertam para cautela. A Defesa Civil de Gaza reforçou que os cidadãos não devem retornar imediatamente às áreas anteriormente ocupadas até que a retirada de Israel seja confirmada oficialmente, pois ataques continuam acontecendo, especialmente na manhã desta sexta em Khan Younis, no sul de Gaza.
Cessar-fogo mediado pelos EUA
O acordo de cessar-fogo, ratificado pelo governo israelense durante a madrugada desta sexta, prevê a suspensão completa das hostilidades em 24 horas e a libertação dos reféns israelenses mantidos pelo Hamas em até 72 horas, em troca de centenas de prisioneiros palestinos detidos em Israel. Caminhões com alimentos e ajuda médica serão enviados à região assim que a situação estiver segura, atendendo civis que vivem em tendas após a destruição de suas casas.
Segundo especialistas, o Hamas encontra-se militarmente fragilizado após dois anos de conflito intenso. O professor Vitelio Brustolin, pesquisador de Harvard e da UFF, avalia que, apesar das perdas no campo militar, o grupo avançou politicamente, especialmente ao obter reconhecimento do Estado da Palestina por mais de 80% dos países membros da ONU, incluindo aliados históricos de Israel como França e Reino Unido.
Desafios territoriais e políticos
Brustolin alerta, no entanto, que o reconhecimento internacional não resolve o impasse territorial, especialmente na Cisjordânia, onde vivem cerca de três milhões de palestinos e 700 mil colonos israelenses, tornando a viabilidade de um Estado palestino ainda um desafio complexo. A saída unilateral de Israel de Gaza em 2005, que possibilitou o fortalecimento militar do Hamas, hoje é apontada por lideranças israelenses como um erro estratégico.
Um retorno cauteloso e cheio de esperança
O cessar-fogo representa um alívio, mas o cenário é de reconstrução física e emocional. Milhares de famílias voltam às suas casas, muitas vezes em ruínas, carregando lembranças dolorosas e a esperança de recomeço. A guerra deixou mais de 67 mil palestinos mortos, e o caminho para a paz será lento, exigindo negociações delicadas, segurança reforçada e a reconstrução da vida de quem perdeu tudo.
Em meio a esse retorno, cada passo dado pelos palestinos no norte de Gaza simboliza resiliência e coragem, lembrando ao mundo que a luta por dignidade e segurança continua, mesmo depois do cessar-fogo. É o início de uma reconstrução não apenas das cidades, mas da esperança de um futuro mais seguro para gerações inteiras.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Brasil – EBC













