Confrontos internos e execuções expõem nova fase de tensão na Faixa de Gaza após trégua
Desde o instante em que a trégua com Israel entrou em vigor, um outro tipo de fogo voltou a queimar Gaza: agora dentro dela mesma. O Hamas, que controla a Faixa de Gaza, emitiu ultimatos: quem colaborou com Israel, ou abrigar essas pessoas, deve ser entregue, ou sofrerá a “mão rigorosa da justiça”. É um recado carregado de medo e intimidação, que revela uma disputa interna que muitos tentavam ignorar.
A força de segurança Radaa, ligada ao Hamas, declarou estar conduzindo uma operação de segurança “abrangente” para “limpar a retaguarda”, mirando aqueles tidos como cúmplices ou “mercenários” do inimigo. Segundo comunicado oficial, restaria uma “última oportunidade” para que informantes se apresentassem; depois disso, não haveria escapatória.
Choques entre Hamas e clãs rivais
Nos últimos dias, a Faixa de Gaza foi palco de violentos confrontos entre o Hamas e grupos armados rivais, notadamente o clã Doghmush, um dos mais conhecidos da Cidade de Gaza. Testemunhas relatam tiroteios intensos, casas queimadas e mortos em combate em bairros como Sabra e Tel al-Hawa.
Em meio a isso, surgiu um vídeo chocante: mascarados, alguns com faixas verdes do Hamas, arrastam homens vendados para uma praça e os executam sob aplausos. A gravação foi amplamente divulgada e verificada pela CNN como tendo sido feita em Al Sabra, no oeste da Cidade de Gaza. O Centro Al-Mezan, ONG de direitos humanos palestina, classificou o ato como “execução extrajudicial” e exigiu investigação.
Segundo relatos, o confronto se intensificou especialmente depois da morte de um filho de um comandante do Hamas, o que teria inflamado vingança entre facções. A família Doghmush afirma que cerca de 28 de seus membros foram mortos, apesar de ter recebido garantias de rendição.
Estratégia de controle e intimidação
O Hamas parece apostar em um cruzamento de intimidação e autoridade. A operação de “limpeza interna” é apresentada como instrumento de segurança e combate à traição. O uso público de execuções, ou sua divulgação, funciona também como advertência para quem cogita resistir.
Ao mesmo tempo, o Ministério do Interior de Gaza, sob comando do Hamas, anunciou uma anistia provisória para membros de gangues “não envolvidos em derramamento de sangue ou assassinatos”. A medida vale até 19 de outubro. Essa oferta sugere que o Hamas quer isolar os casos mais extremos e forçar a rendição ou a delação de outros.
No entanto, levantam-se dúvidas quanto ao real impacto: quem se atreverá a falar? Em que grau membros de lugares vulneráveis serão coagidos? A retórica de “limpar a retaguarda” combina pressão com temor: todos observam, poucos ousam agir.
Raízes históricas e desafios atuais
A pena de morte existe formalmente na Faixa de Gaza sob a administração do Hamas desde 2007. Crimes como traição ou colaboração com Israel já foram punidos com execuções sumárias. Mas nessa nova fase, as regras parecem mais escorregadias. Quem define o que é “colaboração”? Quem investiga quem?
O confronto com o clã Doghmush também tem precedentes: Hamas e famílias rivais já trocaram acusações e enfrentamentos em anos anteriores. Em 2025, relatórios indicam que o Hamas mobilizou forças para prender integrantes do clã e realizar prisões em massa, com dezenas de mortos e detidos.
A guerra interna desse outubro de 2025 trouxe informações sobre números: segundo uma fonte aberta, foram executadas 8 pessoas, com ao menos 52 mortes entre facções e 60 presos durante a ofensiva do Hamas contra o Doghmush.
Quando o cessar-fogo irrompeu entre Israel e o Hamas, muitos viram uma chance de trégua para a população. Mas o pano de fundo de Gaza: o controle interno, as rivalidades, o medo, não foi suspendido. Hoje, é possível que muitos palestinos se perguntem: a quem prestar lealdade? A quem entregar-se? E quem pode garantir que não haverá violação dos direitos mais elementares em nome da ordem?
No fim, não é apenas um episódio de violência: é um espelho cruel do desafio de se manter a liberdade dentro de um território que já viveu tantas guerras. Que as imagens que chocam sejam também convite à reflexão e que, por trás dos gritos e tiros, haja vozes que exijam dignidade, justiça e humanidade.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Reuters
Reportagem: CNN Brasil













