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Trump escolhe Marco Rubio para negociar com o Brasil: chanceler Mauro Vieira se reúne com secretário em meio a tensão política e disputa por tarifas

Senador de origem cubana e aliado do ex-presidente americano lidera diálogo sobre sobretaxa de 40% a produtos brasileiros; encontro na Casa Branca é visto como decisivo para o futuro das relações entre os dois países.

O encontro entre o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, nesta quinta-feira (16), em Washington, marca o início de uma nova e delicada fase nas relações entre Brasil e Estados Unidos.
Designado pelo presidente Donald Trump para liderar as negociações com o governo brasileiro, Rubio chega à mesa de diálogo com a missão de tratar da sobretaxa de 40% imposta a produtos brasileiros: mas seu histórico político e ideológico adiciona incertezas ao tom da conversa.

O encontro em Washington

A reunião ocorre na Casa Branca e é considerada estratégica para destravar as relações comerciais entre os dois países.
Do lado brasileiro, além de Mauro Vieira, participam a embaixadora em Washington, Maria Luiza Viotti, o secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente, Maurício Lyrio, e o secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros, Philip Fox-Drummond Gough: três dos principais negociadores do Itamaraty.
Pelos Estados Unidos, Rubio é acompanhado do representante comercial Jamieson Greer, que na véspera da reunião endureceu o discurso ao afirmar que as tarifas foram impostas por “sérias preocupações com o Estado de Direito, censura e direitos humanos no Brasil”.

Marco Rubio e Mauro Vieira

Segundo Greer, um “juiz brasileiro” teria ordenado a empresas americanas que se censurassem, em uma crítica velada ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. A fala foi recebida com entusiasmo pela direita brasileira, que vê em Rubio um interlocutor mais próximo do bolsonarismo e espera que ele leve à mesa temas “espinhosos” para o governo Lula, como Venezuela, China e Brics.

Quem é Marco Rubio

Nascido na Flórida, filho de imigrantes cubanos, Marco Rubio é a primeira pessoa de origem hispânica a ocupar o cargo de secretário de Estado. Ex-senador e ex-pré-candidato à Presidência dos EUA em 2016, ele disputou com o próprio Trump nas primárias republicanas, quando chegou a chamá-lo de “vigarista” e zombou de sua aparência.


Apesar do histórico de rivalidade, acabou se tornando um aliado estratégico dentro do Partido Republicano. Rubio é conhecido por posições duras em relação à China, Cuba e Irã e por defender sanções e políticas protecionistas para proteger a economia americana.
Sua escolha para liderar as conversas com o Brasil causou cautela no Itamaraty e desconfiança no setor privado, que teme uma abordagem ideológica nas negociações.

O que está em jogo

O principal tema em pauta é a tarifa de 40% sobre produtos brasileiros, em vigor desde 6 de agosto. O governo Lula tenta reverter as medidas protecionistas impostas pelos EUA, que têm afetado duramente setores estratégicos da economia nacional.
Segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, o Brasil já solicitou formalmente que a sobretaxa seja suspensa ainda nesta fase inicial de diálogo.

O ministro Fernando Haddad afirmou que conversou com Mauro Vieira sobre a preparação do encontro e disse que o chanceler “está confiante” na retomada de um clima de cordialidade entre os dois governos.
“O clima mudou. Não sei o caminho que temos pela frente ainda, mas acredito que abrimos uma avenida para relações mais equilibradas, isolando a questão política da questão econômica”, declarou Haddad.

Entre diplomacia e tensão política

Apesar do discurso conciliador, integrantes do governo brasileiro admitem que a postura de Rubio é uma incógnita.
O secretário, que defendeu publicamente as sanções a autoridades brasileiras após o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, pode adotar uma linha mais ideológica e tensionar o diálogo, segundo fontes do Itamaraty.
Ainda assim, o encontro é visto como uma oportunidade crucial para reconstruir pontes e preparar o terreno para o futuro encontro entre Lula e Trump, ainda sem data definida.

Na leitura do governo brasileiro, a prioridade é blindar as negociações econômicas das disputas políticas. O Itamaraty quer manter o foco em comércio, tarifas e investimentos, enquanto setores ligados à direita apostam que Rubio levantará temas geopolíticos e ideológicos.

O fator Eduardo Bolsonaro

Na véspera da reunião, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o jornalista Paulo Figueiredo estiveram no Departamento de Estado dos EUA, em Washington.
Após o encontro, ambos se disseram “otimistas” e reforçaram a proximidade com o governo americano. Eduardo afirmou acreditar que os Estados Unidos continuarão “trabalhando para reduzir o poder de regimes totalitários e pessoas que censuram”.

Para o Palácio do Planalto, as movimentações de aliados do bolsonarismo nos EUA indicam uma tentativa de influenciar a pauta diplomática, especialmente após o agravamento da crise política interna com a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe.

Uma reunião que pode redefinir o rumo das relações

A reunião entre Marco Rubio e Mauro Vieira é mais do que um encontro protocolar: é um teste político e diplomático.
De um lado, o Brasil tenta reafirmar sua autonomia nas relações internacionais e priorizar o diálogo econômico. De outro, enfrenta o desafio de lidar com um interlocutor conhecido por misturar pragmatismo diplomático com ideologia partidária.

Enquanto Lula aposta em uma retomada de pontes com os Estados Unidos, Trump parece usar as negociações como termômetro para medir sua nova influência global.
E, entre as tensões comerciais, as disputas políticas e as expectativas de reaproximação, a reunião na Casa Branca carrega um simbolismo maior: o de um Brasil tentando equilibrar diplomacia e soberania em meio a um cenário internacional cada vez mais imprevisível.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação Jeenah Moon e Portal Metrópoles

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