Deputada diz que encontro foi “positivo” e busca transição justa para nova jornada de trabalho de 4 dias por semana.
Em um movimento que pode transformar profundamente a rotina de milhões de trabalhadores brasileiros, a deputada Erika Hilton (Psol-SP) se reuniu nesta quarta-feira (29) com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para debater a proposta que prevê o fim da escala 6×1: sistema em que o trabalhador atua seis dias por semana e descansa apenas um.
De acordo com Erika, a conversa foi “positiva” e “produtiva”, e teve como foco o desafio de assegurar uma transição justa e equilibrada para um novo modelo de jornada, que prevê 36 horas semanais distribuídas em quatro dias de trabalho.
“Com o Haddad, nós fomos ver qual era a posição do ministério diante dessa pauta e de que forma ele poderia nos auxiliar diante dos obstáculos e desafios para fazer a implementação justa e correta dessa proposta”, disse a deputada à CNN Brasil.
Nova jornada, velhos desafios
A proposta de Erika Hilton se soma a um debate global que vem ganhando força: o da semana de quatro dias, que já foi testada em países como Reino Unido, Espanha e Islândia com resultados promissores. Em muitos desses casos, as empresas relataram aumento de produtividade, melhora no bem-estar dos funcionários e redução do absenteísmo.
Mas, no Brasil, o desafio é maior. Com um mercado de trabalho marcado por alta informalidade, baixos salários e longas jornadas, a transição exigirá cuidado e diálogo com diferentes setores.
O economista e professor da UnB, Paulo Feldmann, avalia que o país precisará de reformas estruturais e incentivos fiscais para garantir que a redução da carga horária não se converta em aumento de custos para o empregador.
“É uma proposta que pode melhorar a qualidade de vida do trabalhador, mas precisa ser feita com equilíbrio para não gerar demissões ou sobrecarga de custos. É necessário repensar a produtividade e investir em tecnologia para compensar o tempo reduzido”, destaca.
Articulação com o governo
Erika Hilton tem costurado apoio em diversos ministérios. Além de Haddad, ela já se reuniu com Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Simone Tebet (Planejamento e Orçamento), Macaé Evaristo (Direitos Humanos e da Cidadania) e Sidônio Palmeira (Comunicação Social).
Nos próximos dias, deve se encontrar com Márcio França (Empreendedorismo) e com o vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
“Estamos buscando levar nossos pontos de vista sobre como é possível amarrar a pauta sem deixar nada descoberto; pensando na economia, no pequeno empreendedor e no modo como o Brasil pode fazer essa transição de forma responsável”, afirmou.
A discussão voltou à Câmara dos Deputados em agosto, com a criação de uma subcomissão especial para analisar o tema, vinculada à Comissão de Trabalho da Casa.
O futuro do trabalho em pauta
A ideia de trabalhar menos dias por semana sem redução salarial mexe com o imaginário de uma geração que tem se mostrado cada vez mais cansada, ansiosa e em busca de qualidade de vida. Para muitos especialistas, a jornada reduzida é mais do que uma pauta trabalhista: é uma questão de saúde mental e equilíbrio social.
“Depois da pandemia, as pessoas repensaram o sentido do trabalho. O que se busca agora é produtividade com dignidade. O trabalhador brasileiro merece viver, não apenas sobreviver”, afirma a socióloga Ana Carolina Nunes, pesquisadora de relações laborais.
Um debate que inspira e provoca
A proposta de Erika Hilton ainda tem um longo caminho até sair do papel, mas o simples fato de estar em pauta já representa uma mudança importante de mentalidade: a de que o tempo é também um direito.
Mais do que discutir economia, o debate reacende a esperança de um país em que trabalhar e viver possam, finalmente, caber na mesma semana.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados













