Presidência brasileira aposta em esforço coletivo para destravar acordo, apesar de impasses e pressão internacional.
Quando o relógio aperta e o mundo espera respostas, Belém amanhece nesta sexta-feira (21) com um misto de tensão, expectativa e urgência. É o último dia oficial da COP30, e as negociações que decidirão o futuro climático do planeta seguem sem consenso. O incêndio que atingiu a Blue Zone, na véspera, não só interrompeu trabalhos por horas como acentuou o sentimento de que o tempo está escapando; justamente quando cada minuto importa.
Em entrevista exclusiva à CNN, o presidente da conferência, André Corrêa do Lago, reconheceu que o incidente mexe diretamente com o ritmo de negociação. Ele confirma que o desafio é enorme, mas mantém a confiança em um esforço conjunto que possa levar a um acordo ainda hoje.
Incêndio pressiona clima das negociações
O incêndio na área central das discussões, a Blue Zone, provocou fumaça, atendimento médico, repercussão internacional e, principalmente, preocupação. A Polícia Federal já abriu investigação e realizou as primeiras vistorias, com perícia completa prevista para esta sexta.
Uma das principais linhas de apuração aponta para um curto-circuito causado por um micro-ondas incompatível com a rede elétrica do local. O episódio reacende questionamentos já levantados pela ONU na semana passada, quando o órgão enviou carta ao governo brasileiro alertando para riscos de segurança, falhas de refrigeração, alagamentos e problemas estruturais da conferência.
Transição energética segue como maior trava
Mesmo com reuniões remotas ocorrendo na quinta, o retorno das plenárias presenciais está previsto para hoje, às 11h. A grande dificuldade continua sendo a mesma: o futuro do uso de combustíveis fósseis.
Para o Brasil, anfitrião da COP, o objetivo é construir um roteiro global para a transição energética. Mas, além desse tema, há pelo menos outros seis roteiros sendo discutidos paralelamente pelas delegações – alguns com prioridade tão alta quanto o debate sobre petróleo. Essa multiplicidade pressiona o cronograma e amplia a distância até um consenso.
ONU alerta para risco de fracasso
Diante do impasse, o secretário-geral da ONU, António Guterres, fez um apelo direto para que a COP não chegue ao fim de mãos vazias.
Ele lembrou que os combustíveis fósseis ainda representam 80% das emissões globais e reafirmou que “não há solução real sem uma transição justa para energias renováveis”. Guterres também destacou a necessidade de ampliar significativamente o financiamento para adaptação e afirmou que considera possível triplicar esses recursos até 2030.
Um último dia que pode mudar o tom da história
Em Belém, os corredores respiram apreensão e esperança ao mesmo tempo. A expectativa da presidência brasileira é clara: um mutirão diplomático, um esforço quase final de fôlego para que o mundo saia de lá com algo concreto – algo que inspire confiança de que ainda podemos virar o jogo climático.
Se esse acordo vier, ele marcará não apenas as negociações, mas a própria simbologia de uma conferência que precisou enfrentar até o fogo para lembrar ao mundo que não há mais tempo a perder. Que esta sexta-feira seja, para o planeta, o início de uma mudança real – ou ao menos o sinal de que ainda estamos tentando.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Alex Ferro/COP30













