Auxiliares avaliam que gesto do governador de São Paulo sinaliza incômodo com pressão do clã Bolsonaro por apoio eleitoral.
Em política, silêncios e ausências costumam falar tão alto quanto discursos. Foi assim que aliados do governador Tarcísio de Freitas interpretaram a decisão de manter a agenda oficial vazia nesta quinta-feira (22), justamente no dia em que ele visitaria o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso em Brasília. Para pessoas próximas, o gesto foi um recado claro e calculado à família Bolsonaro.
Nos bastidores do Palácio dos Bandeirantes, a leitura é de que Tarcísio está profundamente desconfortável com a pressão pública e privada para declarar apoio explícito ao senador Flávio Bolsonaro em sua pré-candidatura à Presidência da República. A insistência, avaliam auxiliares, ultrapassou o limite do razoável e passou a soar como intimidação.
Incômodo com pressão e ameaça velada
Segundo um integrante do alto escalão do governo paulista, falas recentes de Flávio à imprensa, sugerindo que o próprio Jair Bolsonaro cobraria apoio mais firme do governador ao filho, foram recebidas como ameaças veladas. A esse cenário se somam declarações de integrantes do PP, que também elevaram a temperatura política.
“Tarcísio quer deixar claro que não aceita esse tipo de subserviência. O que está acontecendo é quase uma ameaça”, afirmou uma fonte sob reserva. Na terça-feira, após obter autorização do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para visitar Bolsonaro, Tarcísio surpreendeu ao pedir o adiamento do encontro.
Nota oficial e bastidores em ebulição
Em nota sucinta, o governo de São Paulo informou apenas que a visita foi adiada “a pedido do governador para cumprimento de compromissos em São Paulo”, sem detalhar quais seriam essas agendas. O detalhe que chamou atenção é que, oficialmente, nenhum compromisso constava na programação do dia.
Pessoas próximas ao governador afirmam que o incômodo com as declarações de Flávio é real e crescente. Como já revelado anteriormente, Tarcísio não deseja subir em palanque nacional neste momento e considera que já se posicionou de forma suficiente ao ser questionado pela imprensa em ao menos três ocasiões.
Capital político próprio e distanciamento estratégico
O diagnóstico interno é de que o senador precisa mais do capital político de Tarcísio do que o inverso. Bem avaliado em São Paulo, com alta aprovação e força eleitoral própria, o governador acredita ter musculatura suficiente para se manter competitivo sem amarras.
“Esse gesto diz muito. É como se ele estivesse afirmando: já tenho capital político para me eleger aqui”, resumiu a fonte. A avaliação é de que, para o clã bolsonarista, nenhum movimento parece ser suficiente. “Nunca estão satisfeitos ou saciados”, teria confidenciado o governador a aliados.
Visita com caráter humanitário
Aliados fazem questão de ressaltar que a visita a Jair Bolsonaro tinha caráter essencialmente humanitário. Além do gesto pessoal, Tarcísio pretendia relatar conversas que vem mantendo com ministros do STF para tentar viabilizar a prisão domiciliar do ex-presidente, iniciativa revelada com exclusividade pela Jovem Pan.
No fim, a agenda vazia acabou se tornando um dos movimentos mais cheios de significado da semana política. Em um tabuleiro cada vez mais tenso, Tarcísio escolheu o silêncio para reafirmar limites, autonomia e, sobretudo, que não pretende ser conduzido pela pressão de terceiros.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Paulo Guereta / Governo do Estado de SP













