Presidência da Câmara e do Senado reforça união institucional diante de medida unilateral dos EUA e fortalece discurso em defesa da economia nacional.
A nota conjunta divulgada pelos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), representou um gesto simbólico e estratégico no enfrentamento à crise diplomática e comercial gerada pela decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto.
A sinalização do Legislativo brasileiro, embora tardia aos olhos do Palácio do Planalto, que esperava uma manifestação ainda na quarta-feira (9), dia do anúncio das tarifas, foi recebida com alívio e entusiasmo por integrantes do governo.
O posicionamento público de Motta e Alcolumbre veio na quinta-feira (10) e se alinhou diretamente ao discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), especialmente ao mencionar a Lei da Reciprocidade, aprovada em 2024 pelas duas Casas e que autoriza contramedidas comerciais em caso de retaliação por parte de governos estrangeiros.
União institucional diante de ataque externo
A manifestação da cúpula do Congresso ajudou a consolidar um consenso político institucional raro: Executivo, Legislativo e parte do Judiciário agora caminham na mesma direção diante de uma medida que, na avaliação do governo, é pautada por motivações políticas e não econômicas, já que a balança comercial entre Brasil e EUA é favorável aos americanos.
A atitude de Trump também foi considerada uma tentativa de interferência em assuntos internos do país, ao associar a imposição das tarifas à atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Embora ministros do STF tenham criticado a demora do Executivo em reagir de forma mais contundente; principalmente diante dos alertas anteriores, como a fala do secretário de Estado americano Marco Rubio, em maio, sobre sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, a união dos Poderes em torno da defesa da economia nacional parece estar se fortalecendo.
Cautela no tom, firmeza na postura
Apesar do discurso mais duro adotado por Lula nos últimos dias, o governo trabalha para manter os canais diplomáticos abertos. O Itamaraty orienta que o Planalto adote cautela antes de acionar de fato a Lei da Reciprocidade. A preocupação é não comprometer negociações paralelas com os EUA sobre outras tarifas, como as já existentes sobre aço e alumínio, que continuam em debate.
A própria indústria tem demonstrado apreensão. Em entrevista à CNN, o presidente do Instituto do Aço, Marco Polo Lopes, alertou que é preciso “baixar a temperatura” e buscar soluções por meio do diálogo. “O risco de aumento de preços e pressões inflacionárias, caso o Brasil adote medidas de retaliação imediata, é real e pode ter impacto direto nos juros e no consumo interno”, afirmou.
Ainda assim, o gesto do Congresso é visto como essencial para fortalecer a posição brasileira na mesa de negociações internacionais. A unidade entre Executivo e Legislativo reforça o entendimento de que, diante de uma ação considerada injusta e unilateral, o país não pode parecer enfraquecido, e sim coeso em sua defesa. Mesmo que a resposta final demore, o recado já foi dado: o Brasil não aceitará ser pressionado por medidas de viés político que ferem os princípios do comércio justo e da soberania nacional.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













