Documento divulgado pelo escritório da esposa de Alexandre de Moraes não diminuiu o clima de desconfiança na Corte, enquanto pressão política cresce no Congresso e nos bastidores de Brasília.
O caso envolvendo o Banco Master continua ecoando pelos corredores de Brasília e mantém o Supremo Tribunal Federal (STF) sob um clima raro de tensão interna. A nota divulgada pelo escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, que detalha a prestação de serviços ao banco, estava longe de encerrar o assunto. Pelo contrário: dentro da Corte, a reação predominante foi de desconfiança e consternação.
A avaliação é do diretor de jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner. Segundo ele, a divulgação do documento não conseguiu dissipar o desconforto que tomou conta do tribunal após a revelação de que o escritório produziu 36 pareceres jurídicos e opiniões legais para o Banco Master.
Clima interno no Supremo
Nos bastidores do STF, o ambiente atual contrasta com momentos recentes em que a Corte demonstrou maior coesão institucional. Um exemplo lembrado por Rittner são as investigações relacionadas aos ataques de 8 de janeiro.
Naquele período, mesmo com divergências jurídicas sobre a competência do tribunal para julgar determinados casos, havia uma sensação de trabalho conjunto entre os gabinetes dos ministros.
Agora, segundo a análise, o cenário é diferente. O caso Master acabou criando um ambiente mais sensível dentro do tribunal, alimentado por questionamentos públicos, pressões políticas e uma intensa exposição do tema na imprensa e nas redes sociais.
Movimentação no Congresso
Enquanto o Supremo tenta lidar com o desgaste institucional, no Congresso Nacional surgem iniciativas para investigar o caso. Parlamentares articulam a criação de Comissões Parlamentares de Inquérito para apurar eventuais irregularidades relacionadas ao episódio.
O movimento, porém, ainda é considerado minoritário e enfrenta obstáculos políticos importantes. A abertura de uma CPI depende do aval dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, o que torna o avanço da proposta incerto.
Além disso, integrantes do próprio Supremo têm reforçado que, segundo o regimento interno da Corte, o Judiciário não poderia ser investigado por CPIs. Nos bastidores, a interpretação que circula entre magistrados é clara: quem investiga o Supremo é o próprio Supremo.
Impacto político no governo
No Palácio do Planalto, a reação ao caso também não é uniforme. De acordo com a análise de Rittner, existe cautela dentro do governo federal, principalmente diante do cenário político e eleitoral.
O crescimento de adversários nas pesquisas de intenção de voto tem levado parte do governo a evitar um envolvimento mais direto no debate sobre o caso Master.
Ainda assim, há uma ala menor dentro da administração que avalia que o governo teria menos a perder do que outros atores políticos ao se posicionar sobre o tema.
No meio dessa disputa institucional, a sensação que emerge em Brasília é de um ambiente de acusações cruzadas. Como descreveu Rittner, o cenário lembra o famoso meme do Homem-Aranha nas redes sociais, em que personagens apontam uns para os outros.
No fim das contas, mais do que um caso jurídico específico, o episódio acabou se transformando em um retrato das tensões entre os poderes em Brasília. E quando a política e a Justiça passam a se observar com tanta desconfiança, quem acompanha de fora inevitavelmente se pergunta até que ponto as instituições conseguirão preservar a confiança da sociedade.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/G1 – Globo













