Ministro Augusto Nardes avalia deixar o tribunal antes do prazo para disputar eleição em 2026, abrindo espaço para nova disputa política.
Em meio a investigações sensíveis, pressões políticas e movimentos silenciosos de bastidores, o Tribunal de Contas da União pode estar prestes a viver mais um capítulo decisivo. A possível saída antecipada de um de seus ministros não apenas mexe com a composição da Corte, mas reacende disputas antigas e redesenha o tabuleiro de poder em Brasília.
O ministro Augusto Nardes, indicado pela Câmara dos Deputados, tem dito a interlocutores que avalia antecipar sua aposentadoria do TCU. Embora só complete 75 anos; idade da saída compulsória, em outubro de 2027, a intenção seria deixar o cargo já no primeiro semestre de 2026 para disputar uma vaga de deputado federal pelo Rio Grande do Sul.
Uma decisão ainda em avaliação
Segundo relatos feitos à CNN Brasil, Nardes ainda não bateu o martelo sobre a candidatura nem sobre a saída antecipada do tribunal. Apesar disso, o tema já circula entre colegas da Corte. Procurado, o ministro preferiu não comentar.
A movimentação ocorre num momento em que o TCU ganhou ainda mais visibilidade por causa das tentativas de investigar a atuação do Banco Central na crise envolvendo o Banco Master. O ambiente interno é de atenção redobrada e qualquer mudança na composição do tribunal tende a ter forte impacto político.
O peso de uma trajetória no TCU
Gaúcho de Santo Ângelo, Augusto Nardes construiu carreira política antes de chegar ao tribunal. Foi deputado federal por três mandatos pelo PP e, já no TCU, teve papel central em um dos episódios mais marcantes da história recente do país.
Em 2015, foi o relator das contas do governo Dilma Rousseff, rejeitadas pela primeira vez desde os anos 1930: decisão que deu impulso ao processo de impeachment da então presidente.
Hoje, Nardes é um dos três ministros indicados pela Câmara dos Deputados. Os outros dois são Aroldo Cedraz, que se aposenta agora em fevereiro, e Jhonatan de Jesus.
Investigação sensível e novo foco
Jhonatan de Jesus é o relator do processo que apura uma possível omissão do Banco Central nas operações do Banco Master. A iniciativa foi vista pelo mercado como uma tentativa de interferência na liquidação extrajudicial da instituição financeira, o que elevou ainda mais a temperatura política em torno do tribunal.
Ao todo, o TCU é composto por nove ministros: três indicados pela Câmara, três pelo Senado, um indicado pelo presidente da República, um escolhido entre os auditores do tribunal e um proveniente do Ministério Público de Contas.
Disputa aberta nos bastidores
A vaga deixada por Aroldo Cedraz já desencadeou uma disputa intensa nos corredores do Congresso. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), havia prometido apoio ao PT em troca dos votos do partido para sua eleição. O nome preferido dos petistas é o deputado Odair Cunha (MG).
Parte expressiva do Centrão, no entanto, não reconhece o acordo. O PSD defende a indicação do deputado Hugo Leal (RJ), enquanto Danilo Forte (União-CE) também demonstra interesse. Outros nomes, como Elmar Nascimento (União-BA) e Pedro Paulo (PSD-RJ), circulam com força.
Corre por fora um “azarão”: o conselheiro do TCE do Rio Grande do Sul, Cezar Miola, lançado por integrantes da bancada gaúcha. Ex-presidente da Atricon, ele é visto como um nome técnico e respeitado no meio do controle externo.
A eventual abertura de uma segunda vaga no TCU, ainda em 2026, pode embaralhar de vez esse cenário. Mais do que uma simples troca de cadeiras, a decisão de Augusto Nardes tem potencial para redefinir alianças, acelerar ambições e mostrar, mais uma vez, que nos tribunais de controle o jogo político nunca está totalmente fora de cena, apenas muda de forma e de palco.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/CNN Brasil













