Analista da AtlasIntel afirma que episódio envolvendo desfile e críticas da direita nas redes ajudaram a reduzir diferença entre os dois possíveis adversários.
O Carnaval passou, os blocos se dispersaram e os sambas-enredo ficaram na memória. Mas, para além da festa, a política também entrou na avenida e deixou marcas que agora aparecem nas pesquisas eleitorais. Levantamento divulgado pela AtlasIntel nesta quarta-feira (25) mostra um cenário de empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno em 2026. E, segundo o analista da empresa, a folia teve papel mais relevante do que muitos imaginavam.
Em entrevista ao programa Hora H, Yuri Sanches, head de análise política da AtlasIntel, avaliou que uma sátira apresentada durante o desfile de uma escola de samba que homenageava Lula acabou sendo particularmente danosa para o governo, mesmo sem envolvimento direto do presidente ou do PT com o conteúdo.
Carnaval, redes sociais e reação conservadora
De acordo com Sanches, a parte do desfile que ironizou a chamada “família conservadora” gerou forte reação nas redes sociais. Para ele, a direita organizada, lideranças religiosas e parte do eleitorado interpretaram o momento como um ataque a valores e crenças.
Na percepção popular, explicou o analista, a associação entre o desfile e o governo se tornou inevitável, ainda que não houvesse ligação formal. O episódio ganhou força no ambiente digital e contribuiu para mobilizar eleitores já críticos ao Planalto, ajudando a estreitar a diferença na corrida projetada para 2026.
Outros fatores que pesaram na avaliação
O Carnaval, no entanto, não foi o único elemento apontado como influente. Sanches citou também o caso do Banco Master, que apesar de não envolver diretamente o presidente, pode ter respingado na imagem do governo devido à associação frequente, no debate público, entre o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.
Além disso, medidas econômicas recentes, como o aumento de impostos sobre itens eletrônicos, também teriam contribuído para desgaste. Segundo o analista, trata-se de um governo que já carrega a percepção de optar por elevação de arrecadação em vez de cortes de gastos, o que reforça críticas de parte do eleitorado.
Polarização mantida e eleitor decisivo
Para a AtlasIntel, o cenário desenhado para 2026 lembra o de 2022: dois polos consolidados, de um lado Lula, de outro o bolsonarismo, agora representado por Flávio Bolsonaro. A diferença estaria em uma faixa menor, estimada em cerca de 10% do eleitorado, composta por votantes mais independentes ou menos engajados politicamente.
É esse grupo que pode funcionar como pêndulo da disputa. Conforme Sanches, esse eleitor tende a avaliar desempenho e resultados concretos antes de decidir seu voto, podendo tanto reconduzir Lula a uma vantagem quanto fortalecer a oposição.
O analista também observou que Flávio Bolsonaro tem feito movimentos em direção a esse público, ao se posicionar sobre temas como população LGBTQIA+ e avanços científicos, numa tentativa de ampliar sua base para além do núcleo mais ideológico.
Quanto à chamada terceira via, o espaço segue estreito. Nomes como Ronaldo Caiado, Ratinho Júnior e Eduardo Leite aparecem com índices entre 4% e 5% nas intenções de voto, patamar semelhante ao alcançado por Simone Tebet em 2022.
Mais do que números, a pesquisa revela um país que segue dividido e sensível a símbolos, discursos e episódios que, muitas vezes, extrapolam o campo institucional. Em um cenário tão polarizado, cada gesto, cada narrativa e até mesmo um desfile de Carnaval podem ecoar além da avenida e influenciar o rumo da política. Para 2026, o recado parece claro: o eleitor continua atento, e nada é pequeno demais quando a disputa está tão apertada.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação: CNN Brasil













