Bolsonaristas exigem perdão amplo aos presos do 8 de Janeiro, enquanto Paulinho da Força defende apenas redução de penas e busca apoio no Centrão e na esquerda.
O debate sobre a anistia dos condenados pelos atos de 8 de janeiro voltou a incendiar os bastidores de Brasília. A primeira reunião entre o relator do projeto, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), e a bancada do PL foi marcada por tensão, ataques diretos e a cobrança por uma proposta de perdão amplo e irrestrito aos presos.
Reunião marcada por embates
Paulinho defende que o texto seja, na prática, um “PL da Dosimetria” — ou seja, que reduza penas em vez de conceder anistia total. A proposta irritou bolsonaristas, que acusaram o deputado de “ter rabo preso com Moraes” e criticaram o encontro dele com Michel Temer e Aécio Neves, realizado dias antes em São Paulo.
Durante a reunião, o deputado Delegado Caveira (PL-PA) acusou Paulinho de estar sob influência do ministro Alexandre de Moraes, chamou Temer de “vampiro” e disse que Aécio já era conhecido por sua “fama”. Outras deputadas, como Julia Zanatta (PL-SC) e Bia Kicis (PL-DF), reforçaram a insatisfação e cobraram que o relator visitasse os presos em vez de “jantar com vinho caro” ao lado de lideranças políticas.
Reações da bancada bolsonarista
Para o deputado Coronel Chrisóstomo (PL-RO), a ideia de reduzir penas não se sustenta: “Não tem meio perdão. Isso não é perdão.” Já Rodrigo da Zaeli (PL-MT) chegou a minimizar os atos golpistas, dizendo que os envolvidos tiveram apenas um “momento de euforia” e que não deveriam sequer ter sido condenados.
As críticas levaram o líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), a se desculpar com Paulinho pelo tom da reunião. Ainda assim, o relator saiu do encontro prometendo tentar construir um texto que representasse a média de opiniões, mesmo admitindo que a proposta tende a ser de dosimetria, não de anistia total.
Relator amplia articulação política
Além da reunião com o PL, Paulinho também se encontrou com representantes do MDB e do Republicanos e, nesta quarta-feira (24), abriu diálogo com as bancadas do PT, PP e União Brasil. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele disse que não há um texto pronto e que a relatoria será construída em conjunto com líderes partidários.
A previsão é que a versão final do projeto seja apresentada até sexta-feira (26), para tentativa de votação na próxima semana. A decisão final, porém, dependerá do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que definirá a pauta.
Entre perdão e dosimetria
De um lado, bolsonaristas pressionam por um perdão amplo, visto como um gesto político em defesa de apoiadores condenados. Do outro, o relator e parte do Congresso defendem que apenas se discuta a redução de penas, como uma forma de equilibrar justiça e pacificação política.
Um país diante do espelho
O debate sobre a anistia expõe mais do que divergências partidárias: revela um país ainda dividido entre o desejo de reconciliação e a insistência em reescrever fatos recentes de sua história democrática. O embate no Congresso não é apenas sobre presos e penas, mas sobre qual memória o Brasil vai carregar do 8 de Janeiro. No fim das contas, a decisão sobre o texto da anistia será também um retrato de como o Parlamento escolhe lidar com as feridas ainda abertas da democracia.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Câmara dos Deputados













