Depoimento à Polícia Federal expõe colapso de liquidez, dificuldades com o Will Bank e riscos ao sistema financeiro.
Os números são frios, mas o impacto é devastador. Antes de ter a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, o Banco Master contava com apenas R$ 4 milhões em caixa, valor considerado irrisório diante do tamanho da instituição e do risco que representava para o sistema financeiro. A revelação foi feita pelo diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, em depoimento à Polícia Federal, agora tornado público por decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal.
A oitiva ocorreu no dia 30 de dezembro de 2025 e lança luz sobre a gravidade da crise enfrentada pelo banco controlado por Daniel Vorcaro. Segundo Aquino, o Master, classificado como um banco de médio porte, acumulava cerca de R$ 80 bilhões em ativos totais, mas já não tinha liquidez mínima para sustentar suas operações básicas.
Liquidez praticamente zerada e alerta máximo
Durante o depoimento, Ailton Aquino explicou que, para uma instituição desse porte, o esperado seria manter entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões em títulos livres para garantir liquidez. No entanto, às vésperas da intervenção, o cenário era crítico.
Segundo ele, o acompanhamento da supervisão do Banco Central era constante justamente para avaliar se o banco conseguiria “fechar o caixa” diariamente. O dado de apenas R$ 4 milhões disponíveis foi determinante para a adoção de medidas mais duras.
Will Bank agravou a crise
Outro ponto destacado pelo diretor do BC foi a situação do Will Bank, fintech ligada ao Banco Master, que também acabou sendo liquidada. Aquino afirmou que havia sérias dificuldades operacionais, especialmente relacionadas ao pagamento de obrigações e ao funcionamento das contas.
De acordo com ele, a instabilidade do Will Bank agravava ainda mais a crise de liquidez do grupo, exigindo monitoramento contínuo da autoridade monetária para evitar um colapso em cadeia.
Fraudes bilionárias e intervenção do BC
Ao decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master, em 18 de novembro, o Banco Central acusou a instituição de fraudar carteiras de crédito em mais de R$ 11 bilhões. Já o Will Bank passou a operar sob o Regime de Administração Especial Temporária (Raet), mecanismo aplicado quando há comprometimento grave do patrimônio de uma instituição financeira.
O Raet prevê a substituição da diretoria por um conselho gestor, mantendo as operações em funcionamento para reduzir impactos ao Sistema Financeiro Nacional. Segundo Aquino, a medida foi essencial para dar segurança jurídica e operacional diante da possibilidade de venda do Will Bank.
Risco social e impacto no BRB
No depoimento, o diretor do BC também chamou atenção para o volume de ativos do Will Bank presentes no balanço do BRB, banco do Distrito Federal. Sem a decretação do Raet, segundo ele, o prejuízo poderia ter sido ainda maior.
Aquino destacou que o Will Bank concentrava cerca de 11 milhões de cartões de crédito, principalmente entre clientes das classes C e D. Para ilustrar o risco social, recorreu a um exemplo direto: quando o consumidor deixa de conseguir usar o cartão, a chance de inadimplência aumenta drasticamente, afetando todo o sistema.
No fim das contas, o depoimento escancara um retrato preocupante: um banco bilionário, com caixa praticamente vazio, operações fragilizadas e risco real de atingir milhões de brasileiros. Mais do que números, o caso do Banco Master expõe a linha tênue entre a expansão agressiva e o colapso financeiro e reforça o peso das decisões que, longe dos holofotes, tentam evitar que crises privadas se transformem em tragédias coletivas.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Reprodução













