Comissão amplia investigação sobre fraudes em consignados, operações financeiras suspeitas e descontos indevidos em aposentadorias.
Em meio à dor silenciosa de milhares de aposentados e pensionistas que tiveram parte de sua renda corroída por descontos indevidos, a CPMI do INSS deu mais um passo importante nesta quinta-feira (4). A comissão aprovou uma série de convocações que prometem lançar luz sobre o rastro financeiro das fraudes em consignados, ao mesmo tempo em que barrou outras oitivas consideradas politicamente sensíveis. O dia foi marcado por tensão, disputas e decisões que devem repercutir fortemente nas próximas semanas.
Entre os 181 requerimentos analisados, foram confirmadas as convocações do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, e do presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso na operação Compliance Zero. Em contrapartida, a comissão rejeitou os pedidos de convocação do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, e de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula.
Convocação de Romeu Zema levanta suspeitas sobre crédito digital
A convocação do governador mineiro atende a questionamentos sobre a atuação da Zema Financeira, empresa ligada ao grupo familiar, que oferece crédito consignado de forma totalmente digital. Parlamentares alegam que esse modelo amplia os riscos de fraude, especialmente entre idosos com pouca familiaridade com tecnologia.
A empresa esteve entre as instituições autorizadas pelo Banco Central a conceder empréstimos consignados vinculados ao Auxílio Brasil, após a MP 1.106 de 2022, convertida na Lei 14.431. Auditoria da Controladoria-Geral da União, divulgada em 2023, apontou indícios de possível uso eleitoral da ampliação desse crédito.
A senadora Tereza Cristina demonstrou indignação com a convocação. “Não entendo o motivo dessa convocação”, declarou, ao sair em defesa do governador.
Vorcaro, Banco Master e um rombo bilionário sob investigação
Outro foco central da CPMI será Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, que teve a convocação aprovada junto com a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático. Ele foi preso durante a operação Compliance Zero, que apura a venda de títulos de crédito falsos.
Segundo a Polícia Federal, o banco comercializava CDBs com promessa de rendimentos até 40% acima da taxa básica do mercado, um retorno considerado irreal. As investigações apontam que o esquema pode ter movimentado cerca de R$ 12 bilhões.
No mesmo dia da operação, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master e determinou a indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores, aprofundando a dimensão do escândalo.
Convocações rejeitadas ampliam embate político
A CPMI também rejeitou a convocação da presidente do Palmeiras, Leila Pereira, controladora da Crefisa, uma das maiores ofertantes de crédito consignado do país. O pedido havia sido feito pelo relator Alfredo Gaspar, que citou denúncias de falhas operacionais e pressionamento de aposentados para abertura de contas e contratação de serviços.
Outro requerimento barrado foi o que pedia a convocação de Fábio Luís Lula da Silva. A proposta foi derrotada por 19 votos a 12. O pedido citava depoimentos sobre uma suposta engrenagem criminosa envolvendo associações, lobistas no INSS e empresas intermediárias. O texto mencionava repasses financeiros que teriam chegado a um antigo contador de Lulinha, investigado em outra operação do Ministério Público de São Paulo.
Também foi rejeitada a convocação do ministro Jorge Messias. Parlamentares queriam esclarecimentos sobre alertas internos envolvendo judicialização de descontos não autorizados feitos por ao menos nove associações. Para a oposição, a oitiva era “essencial”. Para a base governista, tratava-se de “tentativa de desgaste político”.
A investigação avança, mas as respostas ainda não chegaram
A CPMI segue agora para uma nova fase, com análise de documentos, cruzamento de dados financeiros, quebras de sigilo e oitivas já marcadas para as próximas semanas. O caminho promete ser longo, técnico e altamente politizado.
Enquanto Brasília vive mais um capítulo de disputas nos bastidores, do outro lado estão idosos que contam centavos para pagar remédios, contas e alimentação. Para eles, cada nova convocação não é apenas um ato político, mas a esperança de que, enfim, a verdade apareça e a justiça alcance quem transformou o benefício de uma vida inteira em alvo de fraudes.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Agência Senado













