Irmão do presidente é vice do Sindnapi, entidade alçada ao centro da investigação de fraudes bilionárias em aposentadorias.
Desde o primeiro instante, este caso nos conduz a um ponto de interrogação que exige luz: o sujeito que divide laços de sangue com o chefe da República pode emergir no epicentro de uma investigação contra direitos dos mais vulneráveis: os aposentados. É nessa tensão que se desenrola a pauta da CPMI do INSS, que analisa na próxima quinta-feira (16) a convocação de José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão de Lula e dirigente da entidade sob suspeita.
Após a montagem da comissão e fases iniciais de apurações, o nome de Frei Chico, vice-presidente do Sindnapi (Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos): reaparece com força nas discussões do colegiado, em meio ao escândalo dos descontos indevidos em benefícios previdenciários. A importância desse episódio ultrapassa o conflito político: toca nas estruturas do poder, da confiança pública e da proteção aos mais vulneráveis.
O protagonismo inesperado
Não é novidade que Frei Chico possui longa trajetória no movimento sindical: ele é irmão mais velho de Lula e está no Sindnapi desde 2008. Mas agora, em meio às investigações da chamada “Operação Sem Desconto”, ele ocupa um lugar delicado: embora não seja investigado diretamente, sua posição no sindicato o coloca no centro dos olhares do Congresso e das autoridades.
O Sindnapi figura entre as entidades mais acionadas nos requerimentos da CPMI. A comissão já aprovou centenas de quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático envolvendo sindicatos, associações e empresas envolvidos nas suspeitas de fraude ao INSS e o Sindnapi não ficou de fora.
Até aqui, porém, os requerimentos de convocar Frei Chico especificamente vinham sendo deixados em segundo plano: em parte pela cautela do presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), que manifestou preferência por aguardar o desenrolar das investigações antes de determinar seu depoimento.
O que está em jogo e por que convocá-lo
A CPMI investiga um escândalo estimado em R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos de benefícios previdenciários, sem autorização dos aposentados e pensionistas. Esse esquema envolveria diversas entidades sindicais e associações que teriam atuado como intermediárias para esse tipo de cobrança ilegal.
Relatórios e denúncias apontam que o Sindnapi fez parcerias relacionados ao Banco BMG e à financeira “Help!”, nos quais beneficiários teriam sido vinculados ao sindicato sem seu pleno consentimento; muitas vezes sob a alegação, questionável, de que era condição para obter crédito.
A oposição tem pressionado para que Frei Chico, mesmo como vice-presidente da entidade, seja convocado formalmente. Há ao menos cinco requerimentos já pautados que pedem sua oitiva junto à CPMI.
Se for aprovado o requerimento nesta quinta, poderá haver um embate político forte entre os parlamentares que cobram sua convocação e aqueles que desejam resguardar o trâmite das investigações sem vincular o nome do presidente da República diretamente ao processo.
A gravidade institucional
A ordem judicial do ministro André Mendonça, do STF, determinou o bloqueio de R$ 390 milhões em bens e valores do Sindnapi, alegando movimentações financeiras atípicas. Junto a isso, foi autorizada a quebra de sigilo bancário e fiscal dos dirigentes ligados à entidade, considerando o período desde 2020.
Na mais recente fase da Operação Sem Desconto, o Sindnapi foi alvo de mandados de busca e apreensão feitos pela PF e pela CGU, embora Frei Chico não conste como investigado nessa etapa específica.
Além disso, relatos de aposentados denunciando descontos indevidos vêm à tona com frequência: muitos afirmam que sequer foram informados sobre a vinculação ao sindicato, ou que foram compelidos a aceitar a cobrança para ter acesso a crédito no BMG. Esses depoimentos fortalecem a tese de que o esquema alcançou dimensões nacionais e organizadas.
A CPMI, formada por 16 deputados e 16 senadores, foi instalada em junho de 2025 para justamente apurar irregularidades no INSS, especialmente em entidades que firmaram acordos de cooperação técnica e passaram a subsidiar suas receitas em benefícios previdenciários.
Enquanto a quarta-feira antecede a sessão decisiva, o Brasil segue de olhos fixos: vamos saber se Frei Chico será convocado, ou se prevalecerá o temor da politização. Que 16 de outubro não apenas marque um nome na pauta, mas escale o debate para a transparência no trato dos direitos mais frágeis; e que aqueles que anunciaram estar dispostos a “separar o joio do trigo” mostrem isso na prática. Ao final, não há vitória política que supere a urgência de reconstruir a confiança dos aposentados; muitos deles silenciados até aqui, no sistema que deveria defendê-los.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Ricardo Stuckert/PR













