Avaliação nos bastidores é de que solenidade pode virar ativo político para Lula em meio a veto polêmico e início do ano eleitoral.
O silêncio e a ausência também comunicam. Às vésperas do 8 de Janeiro, data que marca um dos episódios mais traumáticos da democracia brasileira recente, a decisão dos presidentes da Câmara e do Senado de não comparecer à cerimônia oficial escancara o clima de distanciamento entre o Congresso e o Planalto. Para a cúpula do Legislativo, o evento deixou de ser apenas um marco institucional e passou a ser visto como um gesto de governo, com potencial de uso político.
Nos bastidores, interlocutores relatam que tanto Hugo Motta quanto Davi Alcolumbre avaliam que a solenidade tende a ser explorada como um ativo eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A decisão de se ausentar, segundo essas fontes, foi tomada com antecedência e chegou a ser sinalizada ao próprio governo, afastando a leitura de improviso ou reação de última hora.
Ausência calculada e relação com o Planalto
De acordo com relatos feitos à CNN, a ausência dos presidentes das Casas não está diretamente ligada ao veto presidencial ao chamado PL da Dosimetria. O entendimento no Congresso é que, caso ambos participassem do evento, Lula não cometeria a “deselegância” de anunciar o veto durante a solenidade.
Ainda assim, o gesto político de não comparecer acabou abrindo caminho para que o presidente se sinta mais à vontade para avançar com a decisão. A leitura é de que a falta dos chefes do Legislativo elimina um constrangimento institucional que poderia existir caso o veto fosse formalizado diante deles.
Veto em pauta e tensão no início do ano eleitoral
Desde o fim do ano passado, Lula vem sinalizando o desejo de usar o 8 de Janeiro como data simbólica para vetar o projeto aprovado pelo Congresso. Nos últimos dias, no entanto, aliados passaram a defender cautela, temendo que a junção do veto com a cerimônia elevasse a tensão política logo na largada do ano eleitoral.
Mesmo assim, a tese do veto ganhou força. Na terça-feira (6), o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, confirmou a uma rádio baiana que o presidente pretende formalizar a decisão durante o ato em Brasília. Atendendo a um pedido direto de Lula, ministros e lideranças governistas foram orientados a marcar presença na cerimônia.
Um ato político com apelo popular
Segundo fontes do Planalto, a possibilidade de veto segue sobre a mesa, embora ainda não haja confirmação oficial. O desenho do evento, no entanto, indica um caráter fortemente político e simbólico. Está prevista a instalação de um telão na Praça dos Três Poderes, além da expectativa de que Lula desça a rampa do Palácio do Planalto para cumprimentar apoiadores.
A ausência dos presidentes da Câmara e do Senado, nesse contexto, acaba funcionando como um gesto silencioso de desconforto institucional. Mais do que um desencontro de agendas, o episódio revela as fissuras entre os Poderes e antecipa o tom de um ano que promete embates duros, discursos simbólicos e disputas de narrativa em torno da democracia, da memória e do futuro político do país.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Senado Federal













