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Diálogo de Lula com Trump adia decisão sobre Lei da Reciprocidade

Conversa entre os presidentes nos bastidores da ONU coloca futuro da política comercial brasileira em suspenso.

No embalo das cortinas diplomáticas, algo pulsa por trás dos discursos bem estruturados: uma pausa estratégica. Imagine você, leitor, com a respiração suspensa, observando que decisões que poderiam mudar os rumos do comércio entre Brasil e Estados Unidos estão aguardando um simples aceno, ou uma palavra. É exatamente esse sentimento que nos invade ao ver que o diálogo entre Lula e Trump acabou por adiar a definição da tão esperada Lei da Reciprocidade.

Aprovação emperrada: mas não extinta

A decisão de empurrar com a barriga a análise da Lei da Reciprocidade ocorreu ontem, numa manhã que parecia promissora. Estava marcada, para as 10h30, a reunião do Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex): etapa essencial para dar seguimento às deliberações. Mas, antes do encontro, o governo decidiu pedir o adiamento. Foi um movimento cuidadoso, provocado justamente pelo cenário diplomático em curso.  

A influência do diálogo entre os dois líderes

De fato, fontes do Executivo contaram que a tramitação da matéria ficará suspensa por pelo menos uma semana: prazo que, entretanto, pode ser estendido, dependendo de quando Lula e Trump conseguirem conversar por telefone ou videoconferência.  A proximidade entre os presidentes, ainda que apenas sinalizada no palco da Assembleia-Geral da ONU, já carrega influência política concreta sobre essa pauta comercial. 

A tramitação estava adiantada

Antes que fosse paralisada, a pauta corria com etapas bem definidas. Em agosto, o Itamaraty havia solicitado à Camex que considerasse medidas de reciprocidade diante das tarifas impostas pelos EUA às exportações brasileiras.  A expectativa era que o Gecex organizasse um grupo de trabalho para elaborar propostas de resposta, com consulta pública e relatório técnico. 

Na reunião cancelada, estava prevista justamente a apresentação desse “relatório de impacto econômico e setorial”: elemento-chave para embasar juridicamente o uso da Lei da Reciprocidade, além de avaliar se as tarifas americanas ferem normas internacionais de comércio. O documento já vinha sendo desenvolvido, inclusive com contribuições de diferentes órgãos da administração federal. 

Embora não tenha saído da agenda oficial, o tema ficou paralisado nos registros do Gecex.   Como consta em documentos internos, o colegiado foi informado apenas sobre os prazos para as próximas fases do processo, mas nenhuma deliberação foi tomada. 

Por que isso importa?

Essa suspensão não é mero gesto protocolar. A Lei da Reciprocidade representa uma ferramenta que o Brasil poderia usar para responder, de forma legal e estruturada, a medidas protecionistas dos EUA. Se aprovada, poderia reequilibrar a balança comercial, proteger setores sensíveis e sinalizar autonomia mais assertiva nas negociações internacionais.

Mas, ao adiar a decisão em função de um possível diálogo presidencial, o governo transmite que certos temas, por mais técnicos que sejam, são, em última instância, reféns de alinhamentos políticos. E isso produz insegurança em mercados, pressiona setores exportadores e reforça a sensação de que decisões estratégicas são conduzidas nos bastidores.

Enquanto isso, em Washington e em Brasília, hoje se joga uma partida de influência. Que peso terá um simples telefonema entre os líderes? Que interesses estarão em jogo nesse contato? E, sobretudo, se essa pausa estratégica dará espaço para uma solução sólida; ou será apenas um gesto transitório, para ganhar tempo?

No final das contas, o adiamento da Lei da Reciprocidade nos lembra uma verdade dura, mas essencial: decisões que moldam nosso futuro econômico não se dão apenas nos gabinetes técnicos: elas nascem, crescem ou recuam à sombra das relações pessoais entre potências. Que possamos acompanhar, com olhar atento e voz ativa, esse capítulo que se escreve agora, enquanto aguardamos que os líderes falem, mas que o Brasil não fique em silêncio.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/O Globo

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