Decisão revela movimentações de R$ 23 milhões, uso de empresa de fachada e indícios de lavagem de dinheiro e rachadinha.
Quando o sigilo cai, os bastidores do poder costumam falar mais alto do que discursos. E foi exatamente isso que aconteceu nesta sexta-feira (19), quando uma decisão do Supremo Tribunal Federal veio a público e lançou luz sobre o que a Polícia Federal classifica como um esquema sofisticado de desvio de dinheiro público envolvendo deputados federais e seus assessores.
O ministro Flávio Dino retirou o sigilo da decisão que autorizou a operação da Polícia Federal contra os deputados Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy, ambos do PL do Rio de Janeiro. O documento, assinado no último dia 11 de dezembro, detalha suspeitas de peculato e lavagem de dinheiro por meio do uso irregular da Cota Parlamentar, especialmente em contratos de aluguel de veículos.
Por que a PF foi autorizada a agir
Na decisão, Flávio Dino afirma que há indícios robustos de que os parlamentares, em conjunto com assessores, teriam utilizado uma empresa de fachada para desviar recursos da Câmara dos Deputados. Foi esse conjunto de elementos que levou o STF a autorizar buscas e apreensões em endereços no Rio de Janeiro e em Brasília, permitindo que a Polícia Federal avançasse sobre a intimidade financeira dos investigados.
Segundo o ministro, os dados reunidos até aqui justificam medidas invasivas, diante da gravidade dos fatos e da possível continuidade dos crimes.
A empresa no centro do esquema
O coração da investigação é a empresa Harue Locação de Veículos, também identificada como Mobile Rent a Car ou Alfa Auto Car. De acordo com a decisão tornada pública, a empresa seria apenas uma fachada.
A Polícia Federal apurou que, apesar de receber vultosos valores dos gabinetes parlamentares para o aluguel de veículos, inclusive carros blindados como um Toyota Corolla Cross, a empresa não possuía frota compatível com os contratos. Enquanto locadoras reais mantêm dezenas ou centenas de veículos, a Harue tinha cerca de cinco automóveis registrados.
Para agravar ainda mais o quadro, a empresa foi dissolvida de forma irregular, mas continuou recebendo pagamentos públicos.
A rota do dinheiro e cifras incompatíveis
Um dos pontos que mais pesaram para a autorização da operação foi a movimentação financeira de assessores ligados aos deputados, considerada completamente incompatível com seus rendimentos oficiais.
Entre 2023 e 2024, segundo o documento, foram identificadas movimentações expressivas sem origem clara:
Adailton Oliveira, assessor do PL, movimentou mais de R$ 11 milhões.
Itamar de Souza, do gabinete de Carlos Jordy, movimentou quase R$ 6 milhões.
Andrea de Figueiredo movimentou mais de R$ 6 milhões.
Para dificultar o rastreamento, os investigados teriam recorrido à prática conhecida como smurfing, com depósitos fracionados, geralmente abaixo de R$ 10 mil, para escapar dos sistemas automáticos de controle bancário e do Coaf.
Indícios de rachadinha e dinheiro em espécie
A decisão de Flávio Dino aponta que o esquema pode ir além do aluguel de veículos. Mensagens de WhatsApp interceptadas pela Polícia Federal indicam cobranças de valores “por fora”, negociações sobre devolução de dinheiro e até entrega de recursos em espécie.
Há relatos de pagamentos de despesas pessoais dos parlamentares com dinheiro que teria origem na Cota Parlamentar, reforçando a suspeita da prática de rachadinha, quando parte dos recursos pagos a assessores retorna ao político.
O que muda com a quebra de sigilo
Com a retirada do sigilo, a Polícia Federal passa a ter acesso completo a dados bancários e telefônicos dos envolvidos desde 2018 até os dias atuais. As medidas autorizadas incluem a quebra de sigilo bancário, para seguir o rastro do dinheiro, e a quebra de sigilo telemático, permitindo acesso a mensagens, e-mails e dados armazenados em nuvem.
A operação já resultou na apreensão de valores em espécie durante as buscas realizadas nesta sexta-feira. Até o momento, apenas o deputado Carlos Jordy se manifestou, classificando a ação como perseguição política. A defesa de Sóstenes Cavalcante ainda não se pronunciou.
Com os detalhes agora expostos, o caso deixa de ser apenas mais uma investigação sob sigilo e passa a ocupar o centro do debate público. Em um país onde a confiança nas instituições segue fragilizada, a divulgação da decisão reforça uma expectativa clara da sociedade: que cada centavo de dinheiro público seja explicado e que a transparência não seja exceção, mas regra.
Veja a nota de Carlos Jordy:
No dia de hoje, endereços ligados a mim e ao líder do meu partido, deputado Sóstenes Cavalcante, foram alvo de buscas da Polícia Federal, autorizadas pelo ministro Flávio Dino.
As diligências são um desdobramento de buscas realizadas em dezembro do ano passado e teriam como foco supostas irregularidades no aluguel de veículos do meu gabinete. Uma das alegações é que a empresa contratada — da qual sou cliente desde 2019 — possuiria apenas cinco veículos. Se o contrato existe há anos, o que a operação anterior não encontrou para justificar nova ação agora?
Não cabe ao parlamentar fiscalizar a frota ou a estrutura interna da empresa contratada, mas sim contratar o serviço mais eficiente e pelo menor custo, como sempre fiz.
É inadmissível, em uma democracia, que a Polícia Federal seja usada para intimidar parlamentares da oposição. Buscas contra deputados exigem indícios concretos de crimes graves e a atuação de autoridades imparciais.
Causa estranheza que eu e o deputado Sóstenes, justamente quando investigamos o roubo de bilhões do INSS, tenhamos endereços violados e documentos apreendidos enquanto exercemos nosso dever constitucional de fiscalização.
Seguirei firme na oposição e na CPMI do INSS. Essas ações não irão me intimidar nem interromper meu trabalho em defesa dos aposentados.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Estaadão Conteúdo













