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Diplomacia e economia levaram EUA a reduzir tarifas sobre produtos brasileiros

Pressão interna por inflação e negociações com Lula aceleraram mudança no governo Trump, que derrubou sobretaxas de 40% a 50% sobre café, carne bovina e outros produtos.

Em um momento em que o custo de vida se tornou o maior fantasma da política americana, os Estados Unidos decidiram aliviar o peso das tarifas que vinham sufocando produtos brasileiros. A medida, assinada pelo presidente Donald Trump, trouxe alívio imediato ao Brasil e ao setor produtivo, mas também revelou como pressões domésticas e diplomacia bem conduzida podem mudar a rota de decisões antes tratadas como definitivas.

A decisão vale para exportações que entraram nos EUA a partir de 13 de novembro – exatamente na data da reunião entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio. No decreto, Trump citou diretamente a conversa que teve com o presidente Lula em 6 de outubro, durante encontro na Malásia. Mas o alívio não veio apenas da mesa de negociações: chegou após meses de desgaste econômico interno na Casa Branca.

Pressão econômica interna vira ponto decisivo

O tarifaço imposto em 30 de julho havia elevado a carga de importações americanas a níveis inéditos desde 1934, segundo estudos da Universidade Yale. Brasil, Colômbia e Vietnã: os três maiores fornecedores de café aos Estados Unidos, foram atingidos ao mesmo tempo. O impacto apareceu rapidamente nas prateleiras.

Entre agosto e outubro, as importações de café brasileiro caíram pela metade em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o Cecafé. E o consumidor americano sentiu no bolso: em setembro, pagava 20% a mais pelo café que um ano antes, segundo dados do CPI, índice oficial de inflação do país.

Se café pesa no cotidiano, a carne bovina pesa ainda mais. Entre janeiro e junho, o Brasil exportou 181 mil toneladas para os EUA, gerando US$ 1 bilhão – cerca de 12% de toda a exportação nacional de carne. As tarifas de 50% aplicadas ao produto foram apontadas como uma das razões para o aumento de 14,7% no preço da carne americana em um ano.

Custo de vida abala imagem de Trump e muda prioridades

Depois da pandemia, os Estados Unidos não voltaram ao patamar de inflação historicamente baixo. Estudos recentes mostram que os preços estão cerca de 20% mais altos do que antes da crise sanitária.

Apesar de a inflação ter desacelerado do pico de 9,1% em 2022 para 3% atualmente, isso não significou alívio: os preços continuaram subindo, apenas em ritmo menor. No papel, isso significa que US$ 1.000 hoje podem valer apenas US$ 744 em dez anos, caso a inflação permaneça em 3%.

Para Trump, isso tudo pesa mais do que estatísticas técnicas. Sua principal bandeira eleitoral – devolver “acessibilidade” ao custo de vida americano – começa a perder brilho. Pesquisas recentes apontam que 61% dos americanos acreditam que suas políticas pioraram a economia, e a aprovação presidencial caiu para 38%, segundo Ipsos/Reuters, a mais baixa desde seu retorno ao poder.

Até as urnas mandaram recado: eleições em estados como Virgínia, Nova Jersey, Pensilvânia e Nova York mostraram vitórias democratas sustentadas exatamente na promessa de enfrentar o custo de vida.

Diplomacia brasileira enxerga espaço e pressiona

Nesse ambiente, o Brasil intensificou suas conversas com Washington. O clima azedado com o governo americano começou a mudar após Trump declarar, na ONU, que havia “química” entre ele e Lula. Embora Trump nunca tenha explicado por que deixou Bolsonaro para trás no diálogo, o cenário econômico interno tornou o caminho mais natural.

O resultado foi a ordem executiva assinada em 20 de novembro, que derrubou sobretaxas de até 50% sobre produtos agrícolas brasileiros como café, carne, frutas, água de coco e até petróleo. Os itens taxados após o início da vigência da isenção serão reembolsados.

Setores comemoram e pedem continuidade

A decisão foi recebida como uma vitória importante:

Café – O diretor-geral do Cecafé, Marcos Matos, chamou a mudança de “presente de Natal antecipado” e destacou que o produto brasileiro começava a perder espaço para concorrentes como Colômbia e Vietnã.

Carne bovina – A Abiec afirmou que a reversão “restaura o equilíbrio do comércio internacional”, reforçando estabilidade para exportadores brasileiros.

Indústria – A CNI classificou a decisão como “avanço concreto” na renovação da agenda bilateral.

Estados produtores – Para Flávio Roscoe, presidente da Fiemg, o caso prova que a negociação é o caminho para proteger a indústria e garantir previsibilidade.

Governo federal – O ministro Carlos Fávaro destacou que Brasil e EUA não poderiam manter relações pautadas por “fofocas e disse-me-disse”, e que o diálogo presidencial mudou o rumo das negociações.

Nem tudo, porém, foi comemoração. O setor de pescados ficou fora da lista. Com exportações anuais de US$ 300 milhões para os EUA, representantes dizem estar felizes pelos demais, mas frustrados pela falta de avanço para o segmento.

Entenda o que muda com o fim do tarifaço

A determinação recente:

  • Derruba sobretaxas de até 50% aplicadas dias antes.
  • Zera os acréscimos sobre inúmeros produtos agrícolas brasileiros.
  • Garante reembolso para exportadores taxados indevidamente no período de transição.
  • Reverte o decreto que alegava “emergência nacional” provocada por políticas brasileiras.
  • Marca uma guinada política e técnica na postura americana.

Uma decisão que nasce da combinação entre crise e oportunidade

O alívio tarifário não é apenas um benefício comercial. É o retrato de duas realidades convergindo: o Brasil soube aproveitar a abertura diplomática, enquanto os Estados Unidos precisavam urgentemente acalmar o impacto do custo de vida sobre sua população, e sobre a popularidade de Trump.

No fim, fica uma lição clara para os próximos anos: no tabuleiro global, quando economia, diplomacia e política interna se cruzam, nenhuma decisão é realmente permanente. Algumas apenas esperam o momento certo para mudar de direção.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação/CNN Brasil

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