Parlamentares e partidos apontam propaganda antecipada, abuso de poder e até discriminação religiosa após apresentação na Sapucaí.
O que era para ser apenas mais uma noite de brilho, tamborins e emoção na Marquês de Sapucaí acabou se transformando em um novo capítulo da polarização política brasileira. Menos de 24 horas após o desfile em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, parlamentares e partidos de oposição anunciaram uma ofensiva judicial com ao menos 12 medidas para questionar o evento.
As iniciativas levantam suspeitas de propaganda eleitoral antecipada, abuso de poder político e econômico, uso indevido de recursos públicos e até alegações de preconceito religioso contra evangélicos retratados no enredo. O caso, que começou na avenida, agora se espalha por diferentes frentes da Justiça, ampliando o debate para além do campo eleitoral.
Ofensiva jurídica da oposição
O partido Novo informou que pretende pedir a inelegibilidade de Lula por suposto abuso de poder político e econômico, sob o argumento de que recursos públicos teriam sido utilizados para promover sua imagem. A ação, segundo a legenda, será protocolada caso o presidente formalize candidatura no segundo semestre de 2026.
O Partido Liberal também anunciou que adotará “providências cabíveis” após identificar o que classificou como “série de ilícitos eleitorais”, como menções repetidas a número de urna, presença de símbolos partidários e exaltação do governo. A sigla deve ingressar com ação de investigação judicial eleitoral para apurar eventual propaganda antecipada e uso indevido de recursos públicos.
O senador Flávio Bolsonaro afirmou que protocolará ação contra o que chamou de “crimes do PT na Sapucaí com dinheiro público”. Já o deputado Luciano Zucco declarou que o enredo e a presença de Lula geram “indícios que merecem apuração” sobre possível promoção eleitoral antecipada.
O senador Rogério Marinho disse que provocará a Justiça Eleitoral para investigar eventual abuso de poder político. O deputado Nikolas Ferreira afirmou que, se Lula oficializar candidatura em 2026, ingressará com ação por abuso de poder político e econômico e também declarou que denunciará o presidente ao Ministério Público por improbidade administrativa.
Representações por discriminação religiosa
Outro foco das ações envolve a representação de evangélicos no desfile da Acadêmicos de Niterói. O senador Magno Malta informou ter acionado o Tribunal Superior Eleitoral contra a escola de samba, alegando caráter político-eleitoral da apresentação. Ele também acionou a Procuradoria-Geral da República por suposta discriminação religiosa, afirmando que uma ala teria equiparado evangélicos a “latas de conserva”, expondo fiéis ao escárnio coletivo.
O deputado Rodolfo Nogueira apontou possível violação de dispositivo do Código Penal relacionado ao escarnecimento público por motivo de crença religiosa. Segundo ele, um personagem identificado como evangélico aparecia com uma Bíblia, o que reforçaria o caráter vexatório da alegoria.
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, também declarou que pretende levar à Justiça a representação de evangélicos no desfile.
Além disso, o PL anunciou que pedirá ao TSE a abertura das contas da escola de samba para verificar eventual financiamento por empresários com contratos com o governo federal.
O desfile que virou debate nacional
Com o título “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, o enredo contou a trajetória do presidente desde a saída de Garanhuns, em Pernambuco, passando pela vida em São Paulo, o período como líder sindical e a chegada ao Planalto.
Lula assistiu à apresentação direto da Marquês de Sapucaí, no camarote do Executivo municipal, ao lado do prefeito Eduardo Paes, ministros e aliados.
O desfile também fez críticas a adversários políticos. Em uma das alegorias, o ex-presidente Michel Temer aparece “retirando” a faixa presidencial de Dilma Rousseff. Em outro momento, um personagem identificado como “Bozo” é interpretado como referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O outro lado
Em nota, o Partido dos Trabalhadores afirmou que o samba-enredo é manifestação legítima da liberdade de expressão artística e cultural garantida pela Constituição. Segundo a legenda, a concepção e execução do desfile ocorreram de forma autônoma pela agremiação carnavalesca, sem participação ou financiamento do partido ou do presidente.
O partido também destacou que não houve pedido de voto durante a apresentação, afastando, em sua avaliação, a caracterização de propaganda eleitoral antecipada ou discussão sobre inelegibilidade.
No fim das contas, o que se viu foi mais do que um desfile. Foi a materialização de um país dividido, onde até a arte vira campo de batalha. Entre fantasias, alegorias e discursos jurídicos, fica a pergunta que ecoa além da avenida: até que ponto o Carnaval pode ser apenas cultura e expressão popular, sem ser tragado pela disputa política que hoje atravessa o Brasil?
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação/Parlamento PB













