Home / Politica / Generais Heleno e Paulo Sérgio podem manter contato durante prisão no quartel

Generais Heleno e Paulo Sérgio podem manter contato durante prisão no quartel

Ex-ministros cumprem pena no Comando Militar do Planalto sob custódia de oficial que já integrou a equipe de Bolsonaro.

A rotina dentro do Comando Militar do Planalto (CMP) escancara uma contradição curiosa e desconfortável para o alto comando das Forças Armadas: dois dos generais mais influentes do governo Bolsonaro, agora condenados por participação no plano de golpe de Estado, cumprem pena em um mesmo quartel e podem, inclusive, manter contato no dia a dia. É um cenário que revela tensões internas, memórias recentes e relações hierárquicas que se embaralham no momento mais sensível da história recente do Exército.

Desde terça-feira (25), Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira estão detidos em salas de Estado-Maior no prédio principal do CMP, em Brasília. Apesar de acomodados em dependências diferentes, ambos podem se encontrar durante as refeições e no período de banho de sol, já que a restrição de contato entre os integrantes do núcleo 1 foi revogada em junho pelo ministro Alexandre de Moraes, após o encerramento dos interrogatórios.

Rotina reservada e estrutura da detenção


Cada um dos generais está instalado em um quarto simples, com cama de solteiro, frigobar, escrivaninha e acesso à TV aberta. O Exército tem evitado divulgar detalhes públicos sobre as condições de encarceramento, justamente para impedir a exposição dos ex-ministros: um cuidado que demonstra o quanto a situação ainda é considerada delicada entre militares.

A custódia de ambos está sob responsabilidade do general de quatro estrelas Luiz Fernando Estorilho Baganha, chefe do Departamento-Geral de Pessoal. O vínculo entre eles não é apenas institucional: Baganha já foi subordinado a Augusto Heleno no governo Bolsonaro, quando atuou como secretário de Segurança e Coordenação Presidencial no GSI.

Operação conduzida por oficiais próximos


A própria prisão dos generais foi conduzida por figuras de sua convivência profissional. Além de Baganha, participou da operação o general Francisco Humberto Montenegro Júnior, atual chefe do Estado-Maior do Exército. Montenegro, inclusive, foi chefe de gabinete de Paulo Sérgio durante seu comando da Força Terrestre entre 2021 e 2022.

Para evitar constrangimentos e a exposição pública dos ex-ministros, os detalhes da custódia foram definidos antecipadamente pelo comandante do Exército, general Tomás Paiva, pelo ministro Alexandre de Moraes e pela Polícia Federal. Como resultado, Heleno e Paulo Sérgio não foram presos por agentes federais nem levados ao IML; o exame de corpo de delito ocorreu dentro do próprio quartel, acompanhado pela PF.

Condenações pesadas e ambiente desconfortável

A situação é descrita como desconfortável dentro da caserna. Afinal, trata-se de dois generais da reserva, ex-ministros de Estado e figuras centrais de um governo que marcou profundamente a relação entre política e Forças Armadas; agora privados de liberdade e sob vigilância de oficiais que, até pouco tempo atrás, estavam sob seu comando.

Augusto Heleno, de 78 anos, cumpre pena de 21 anos de prisão em regime fechado, além de 84 dias-multa. Paulo Sérgio, de 67 anos, foi condenado a 19 anos, também em regime inicial fechado, e ao pagamento de 84 dias-multa.

Em meio à disciplina rígida, aos encontros esporádicos e à nostalgia de um passado recente de poder, a presença dos dois generais no CMP deixa no ar uma sensação de ruptura: como se o quartel, agora silencioso, testemunhasse não apenas a execução de uma pena, mas o fim simbólico de um ciclo que redefiniu a relação entre militares e democracia no Brasil.

Texto: Daniela Castelo Branco

Foto: Divulgação

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *