Discussão divide ministros e expõe dilema entre política de direitos humanos e temor de associação com o crime.
O silêncio que ficou depois dos tiros ainda ecoa nas vielas do Rio de Janeiro. Cento e dezessete vidas foram interrompidas em uma das maiores operações policiais já realizadas no estado, e agora, em meio à dor das famílias, surge uma nova discussão: o governo federal deve ou não prestar apoio a quem perdeu seus entes nessa tragédia?
A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, defende que sim. Para ela, o amparo da União seria uma forma de reconhecer a dor das famílias e reafirmar o compromisso do Estado com a dignidade humana, independentemente de quem sejam as vítimas.
Palácio do Planalto adota cautela
No entanto, o tema é tratado com extrema cautela dentro do Palácio do Planalto. Assessores próximos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva temem que uma eventual ajuda federal seja interpretada como uma aproximação política com o crime organizado, já que todos os mortos são classificados como suspeitos de envolvimento com facções.
O debate é delicado e coloca o governo diante de um impasse: de um lado, o compromisso histórico de Lula com políticas sociais e direitos humanos; de outro, o risco de desgaste político em um momento em que a segurança pública é uma das maiores cobranças da população.
Responsabilidade estadual
A tendência, segundo fontes ouvidas, é que a União não ofereça assistência direta às famílias, sob o entendimento de que a responsabilidade é do governo estadual. Ainda assim, o tema não está totalmente encerrado dentro do Ministério dos Direitos Humanos, há quem defenda uma ação simbólica, como visitas, escuta das famílias e encaminhamento de denúncias de eventuais abusos.
Enquanto o governo decide o que fazer, mães, filhos e companheiras dos mortos seguem tentando entender o que restou de suas vidas. Para além dos números e das disputas políticas, há histórias que se perderam em meio à fumaça das operações. E talvez o maior desafio do Estado brasileiro; mais do que escolher um lado, seja olhar para essas dores com humanidade, sem medo de reconhecer que toda vida, independentemente de rótulos, tem valor.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Ricardo Stuckert/PR













