Categoria pressiona por reajuste e valorização enquanto governo reage com ações na Justiça; prejuízos chegam a bilhões e travam comércio exterior
Após mais de 200 dias de paralisação, a greve dos Auditores-Fiscais da Receita Federal se tornou a maior da história da categoria. Iniciada em novembro de 2024, a mobilização já provocou impactos bilionários na arrecadação federal, no comércio exterior e na logística nacional, gerando um impasse que desafia o governo federal e acende alertas no setor produtivo.
O movimento ganhou força após a rejeição, por ampla maioria, da proposta de reajuste salarial apresentada pelo Ministério da Gestão e Inovação (MGI) em maio. Para os servidores, a oferta foi considerada insuficiente, discriminatória e muito aquém dos reajustes concedidos a outras carreiras de Estado, como os procuradores da Fazenda Nacional.
Rejeição em massa e mobilização nas ruas
No dia 22 de maio, mais de 7.200 Auditores-Fiscais participaram da votação nacional que recusou a proposta do governo, com mais de 95% dos votos contrários. A decisão reforçou a unidade da categoria, que logo em seguida organizou um grande ato público em Brasília. No dia 11 de junho, mais de 500 Auditores de diferentes estados ocuparam a Esplanada dos Ministérios, pressionando por uma nova negociação.
Durante o protesto, representantes do Sindifisco Nacional foram recebidos pelo secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, em uma reunião marcada por tensão. O diálogo, no entanto, pouco avançou.
Perdas bilionárias e risco fiscal
Segundo a Fecomercio-SP, a greve já gerou uma queda de R$ 19 bilhões na arrecadação federal até março deste ano. Além disso, mais de 100 mil encomendas e cerca de 270 toneladas de mercadorias estão retidas nos postos aduaneiros, gerando atrasos em portos, aeroportos e zonas de fronteira.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, apontou a paralisação como um dos fatores que levaram ao contingenciamento de gastos no Orçamento de 2025, anunciado em maio. Outro impacto direto foi a interrupção de negociações fiscais, com cerca de R$ 14,6 bilhões parados por falta de tramitação na Receita.
A Associação Brasileira de Operadores Logísticos (ABOL) calcula um prejuízo adicional de R$ 3,5 bilhões no setor de transporte e distribuição de cargas.
Governo recorre ao STJ e impõe multa milionária
Em 6 de junho, o governo federal decidiu judicializar o impasse. O Superior Tribunal de Justiça (STJ), por decisão do ministro Benedito Gonçalves, determinou a suspensão imediata da greve e das operações-padrão nas alfândegas, sob pena de multa diária de R$ 500 mil ao Sindifisco Nacional. A liminar atendeu a um pedido da Advocacia-Geral da União (AGU), que alegou risco à arrecadação e à economia.
Mesmo cumprindo a decisão judicial e suspendendo temporariamente a operação-padrão, os Auditores-Fiscais mantiveram o estado de mobilização. No dia 9 de junho, o sindicato entrou com embargos de declaração no STJ, contestando a decisão e defendendo a legalidade da greve.
Clima de desconfiança e acusações internas
A crise também provocou fissuras na relação entre a categoria e a administração da Receita Federal. Durante a última reunião com o secretário Barreirinhas, lideranças do movimento acusaram a gestão de traição e de articular, junto ao governo, uma campanha de desinformação contra os servidores. Um vídeo que circulou nas redes sociais, com críticas diretas ao secretário, acirrou os ânimos.
Em resposta, Barreirinhas negou as acusações e classificou as críticas como “fake news”. O Sindifisco, por sua vez, reiterou seu compromisso com a verdade e repudiou qualquer incitação à violência.
A Unafisco Nacional foi além e pediu publicamente a saída de Barreirinhas do cargo, acusando o secretário de paralisia nas negociações e de priorizar outras carreiras do serviço público.
O que os Auditores exigem
Entre as principais reivindicações estão:
- Recomposição salarial para toda a categoria, com correção das perdas acumuladas desde 2016
- Pagamento integral do bônus de eficiência
- Destinação de recursos do Fundo de Administração Fazendária (Fundaf) para assistência à saúde dos servidores
Até agora, a única sinalização concreta do governo foi a abertura de uma mesa de negociação em maio, mas sem avanços efetivos.
O próximo capítulo
Com o movimento judicializado e o diálogo travado, a greve dos Auditores-Fiscais segue como um dos maiores desafios para o governo Lula em 2025 no campo das relações com o funcionalismo público. A expectativa da categoria é que novas propostas sejam apresentadas nas próximas semanas.
Enquanto isso, os prejuízos continuam a se acumular, pressionando tanto a economia quanto a paciência da sociedade e dos setores produtivos.
Texto: Daniela Castelo Branco
Foto: Divulgação













